JOÃO CALDAS FILHO
JOÃO CALDAS FILHO

Revolta de Camus ecoa no espetáculo 'O Mal-Entendido'

Na montagem, diretor e elenco expressam o autor que dizia que só a falta de esperança dá sentido à vida

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2018 | 06h00

Após a sua brilhante montagem de Calígula, com Thiago Lacerda, Gabriel Villela incursiona de novo pelo universo de Albert Camus, e dessa vez com Estado de Sítio. Os ensaios da peça, que terá Cláudio Fontana no elenco, começaram esta semana. Estado de Sítio, de 1948, metaforiza a guerra por meio da Guerra Civil espanhola. Cádiz, assolada pela peste, a morte, e a autoridade que proclama – “A vontade do governador é que nada aconteça com seu governo e tudo continue bem, como sempre foi.”

A atualidade de Camus – ele escreveu para o mundo do pós-guerra, ou o Brasil de 2018? Desta vez, um discípulo antecipou-se ao mestre e Ivan Andrade encerra, neste final de semana, as apresentações de O Mal-Entendido no Sesc Pinheiros. Ivan foi assistente de direção em diversas peças de Villela. Tem secundado Bob Wilson em suas aventuras brasileiras. O Mal-Entendido surgiu com Calígula e foi ofuscado pela outra peça. Sua origem está numa notícia de jornal que o jovem Camus leu em 1935. Em Belgrado, mãe e filha mataram hóspede do seu pequeno hotel, para ficar com o dinheiro. Não reconheceram o filho e irmão que estava ali para lhes fazer uma surpresa. Quando a verdade eclodiu, desesperadas, mataram-se.

Camus colocou essa história, em passant, no jornal que Mersault lê em O Estrangeiro. Na peça, a irmã sonha utilizar o dinheiro para viver junto ao mar. Não percebe que, ao matar, destrói suas possibilidades de mudança. Lara Córdula, que interpreta Martha, descreve esse mar imaginado. E pula para que a onda não molhe seus pés. Imaginai! A essência do teatro, o título do livro que Dib Carneiro e Rodrigo Audi dedicaram a Gabriel Villela, nas edições Sesc. Embora considerada uma obra menor, O Mal-Entendido carrega a essência das interrogações de Camus. “Se não podemos suportar o mundo, devemos denunciá-lo. E a primeira coisa é lançar nosso grito de revolta.” Esse grito ecoa no palco com vigor. O diretor sabe que a riqueza simbólica dos diálogos de Camus está na contramão da sensibilidade contemporânea, saturada de imagens. Com seu elenco (Lara, Maria do Carmo Soares, a mãe, Hélio Cícero, o filho cujo retorno termina em tragédia) entrega o texto com rigor, e pleno sentido daquilo que diz.

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