GABRIELA BILO/ ESTADAO
GABRIELA BILO/ ESTADAO

Retórica dos políticos inspira a peça 'Caesar'

A direção é de Roberto Alvim e no elenco estão Carmo Dalla Vecchia e Caco Ciocler; clássico de Shakespeare também inspirou filmes

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

15 Julho 2015 | 05h00

A ideia brotou no final do ano passado, quando o diretor Roberto Alvim observava os debates entre os políticos que disputavam a eleição presidencial. “A forma como aqueles políticos manobravam as palavras me fizeram pensar na retórica emocional de Brutus e Marco Antônio, da peça Julio César, de Shakespeare”, disse o encenador. “Como a política envolve uma manipulação de afetos – e hoje constatamos essa polarização que invade as redes sociais entre os favoráveis e os contrários, percebi que era o momento de montar essa peça.”

E, ao invés de apostar na íntegra do texto shakespeariano, Alvim preferiu sintetizá-lo para dois atores, que transitam por todos os personagens, permitindo que o jogo político se evidencie na permanente troca de discurso. Nasceu, assim, Caesar – Como Construir um Império, que estreia na sexta-feira, dia 17, no teatro do Sesc Santo André – a montagem virá para São Paulo no dia 18 de setembro, no Centro Cultural São Paulo.

“A peça desvela o mecanismo por meio do qual as falas redesenham os fatos, e estes desenhos mudam de acordo com as circunstâncias”, conta. “Pensando em nosso momento, basta comparar as promessas de Dilma Rousseff antes da reeleição e o que foi obrigada a fazer depois de iniciado o novo mandato.”

Em cena, Caco Ciocler e Carmo Dalla Vecchia se revezam entre todos os personagens, mas especificamente nos quatro centrais, justamente os mais ambíguos e contraditórios: César, Brutus, Cássio e Marco Antônio. A diferenciação entre eles acontece por meio de composições vocais e corporais específicas. “Nas palavras e ações desses personagens, percebemos os indícios sutis de uma imensa riqueza psíquica e emocional, repleta de instabilidades, compondo figuras humanas de imensurável complexidade. Mas o grande protagonista da obra não são suas personagens, e sim o processo histórico, que nos mergulha em uma vertigem incontrolável”, explica Alvim.

A presença de apenas dois atores reforça o argumento de que os discursos são cambiáveis, dependendo da situação. E a trama armada por Shakespeare comprova essa tese – durante uma sessão no senado, César é morto por um grupo de conspiradores liderados por Brutus que, diante do povo romano, profere um discurso para justificar o homicídio, garantindo que a ambição iria conduzir o governante para a tirania. Matá-lo, portanto, foi a melhor maneira de manter o povo livre e salvar a democracia. 

Convencido, o povo aclama Brutus como herói nacional. Em seguida, Marco Antônio fala aos cidadãos e, em seu emocionado discurso, garante que César jamais se tornaria um tirano, e que Brutus e os outros não passavam de traidores. O povo avança contra Brutus e seu grupo, obrigando-os a fugir. Em seguida, Marco Antônio assume o poder do Império, enquanto os conspiradores são perseguidos e mortos. Brutus, tomado por uma crise de consciência, comete suicídio no momento em que Roma mergulha em uma guerra civil.

“O processo histórico revela-se maior que os personagens”, comenta Caco Ciocler. “A peça fala da ação dos indivíduos na história e mostra como vivemos em um rio caudaloso: aqueles que não se adaptam à correnteza, também não sobrevivem.” Já Carmo Dalla Vecchia ressaltou a importância de a peça contar com música executada ao vivo. “As notas ajudam a me manter atento às circunstâncias da trama.”

De fato, ao preparar a tradução e a adaptação do texto de Shakespeare, Roberto Alvim percebeu que era o momento certo para iniciar uma parceria com o filósofo Vladimir Safatle. “Ele assistiu às minhas montagens de Tríptico Samuel Beckett e Terra de Ninguém, além da ópera Artemis e me enviou um e-mail com considerações muito pertinentes”, conta o encenador.

Os dois começaram a se corresponder por e-mail, até que o filósofo enviou ao diretor algumas de suas composições para piano. “Fiquei fascinado. Não sabia que o Safatle compunha e achei sua música estranhamente bela, vigorosa e inventiva. Combinamos de trabalhar juntos no futuro, unindo suas composições ao meu trabalho de encenação”, relata Alvim que, enquanto preparava Caesar, convidou Safatle para compor.

A música de Safatle não entra simplesmente como uma trilha sonora. Segundo Alvim, ela está presente de modo estrutural na encenação, transformando o espetáculo em uma ópera minimalista. “Safatle criou uma espécie de sismografia pulsante do poder”, completa o diretor.

“Procurei criar um trabalho musical do que representa o processo histórico”, observa Safatle, que executa suas canções ao vivo, junto dos atores, pontuando o espetáculo. “Todas as diferentes modulações rítmicas da fala e seus deslocamentos entre texturas vocais são acompanhados por construções musicais, localizando a obra em uma zona que não é a da fala cotidiana, tampouco a do canto: um campo no qual a fala musicada confere outras possibilidades de potência à palavra”, afirma Alvim, que criou também um espaço propício para a encenação.

A peça ocorre em um quadrado de 36 m² coberto por milhares de moedas. No teto, surgem esqueletos pendurados e uma luz vermelha de néon de cinco metros de altura une o solo ao teto. “Um império se constrói com dinheiro e morte e é o sangue que os conecta”, justifica Alvim.

Política e crime nas adaptações da peça para o cinema

Mankiewicz e os irmãos Taviani se destacam pelas diferentes abordagens do texto do autor elisabetano

No seu livro sobre Joseph L. Mankiewicz (Rivages/Cinema), o vietnamita N.T. Binh fala das interpretações de Julio César, que o diretor fez em 1953. Cita o quarteto que, no filme de Mankiewicz como na peça de Shakespeare, concentra o drama – Marco Antônio/Cássio/Bruto/Casca. Ou seja, Marlon Brando/John Gielgud/James Mason/Edmund O’Brien. Binh diz que cada um atua do seu jeito, mas isso não diminui a força do filme porque na peça é assim mesmo.

Julio César é uma peça de transição de Shakespeare. Otto Maria Carpeaux observa como nela se esvanece o espírito renascentista, preparando o clima para o teatro noturno do autor. O texto é incoerente, se decompõe em partes quase independentes, de forma que a tragédia do ditador assassinado é substituída pela do republicano desiludido (e vencido). Cássio e Casca preparam o caminho para o discurso de Marco Antônio, após o assassinato de César, e a culpa de Brutus ocupa todo o final.

Mankiewicz já havia recebido quatro Oscars – dois como melhor diretor e dois como roteirista pelos filmes Quem É o Infiel? e A Malvada. Sua fama, como a do irmão Herman, que escreveu Cidadão Kane, era de intelectual. Com um elenco de astros e estrelas da Metro, compôs o elenco de sua adaptação da peça de Shakespeare. Hollywood on Avon. A tragédia passa pela palavra, a mise-en-scène constrói-se no dinamismo dos diálogos. Para evitar que virasse um grande espetáculo, Mankiewicz filmou em preto e branco.

Dez anos mais tarde, ele voltou a Julio César como espetáculo, em Cleópatra. Manteve os diálogos shakespearianos, mas eliminou o discurso de Marco Antônio. Quando Richard Burton começa a falar, após a morte de César, a câmera se afasta e o ruído da multidão abafa suas palavras. O efeito é nítido. Ele não será um sucessor à altura de César, e essa é sua tragédia (e a de Cleópatra). 

Mais 50 anos e os irmãos Taviani utilizaram a encenação de Julio Cesar numa prisão como forma de refletir sobre a Itália contemporânea em César Deve Morrer. Onde acaba a política, o assassinato de César, e começa o crime. Julio César viveu mais duas vezes nas telas, em adaptações da peça com Charlton Heston. A segunda, de Stuart Burge, de 1970, seria mais interessante se não fosse a robótica atuação de Jason Robards como Brutus. / Luiz Carlos Merten

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