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Reportagem de Leonencio Nossa, do 'Estado', vira peça de teatro

Conflitos brasileiros inspiram espetáculo

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2015 | 03h00

“Os homens liderados por Benedicta Cypriano Gomes, a Dica, uma jovem goiana de 19 anos, não sabiam diferenciar os sentidos esquerda e direita”. Assim começa a descrição da Guerra de Santa Dica, presente na reportagem Guerras Desconhecidas, escrita pelo jornalista do Estado Leonencio Nossa e publicada em 2010. “Para ensiná-los a marchar, ela mandou amarrar palha em um dos pés deles. À frente do Exército dos Anjos, como chamava o grupo, Dica ditava a marcha: ‘Pé de paia, pé sem paia’.” 

No palco da Barraca de Cena, uma armação itinerante, a marcha da jovem pode ser vista na montagem do grupo Estudo de Cena que adaptou o material no espetáculo homônimo, dirigido por Diogo Noventa. 

O espetáculo viajou pelas cidades baianas de Canudos, Juazeiro, Uauá e Euclides da Cunha e agora volta a São Paulo, em cartaz na Universidade Estadual Paulista (Unesp), na Barra Funda. 

Ao longo de 17 meses, Nossa visitou 41 cidades de oito estados brasileiros para investigar revoltas populares ocorridas ao longo do século 20. Do Norte ao Sul, ele narra nove conflitos que massacraram beatos, rezadeiras, pequenos agricultores pelas mãos do Estado. “Apesar de terem sido conflitos entre forças desiguais, chamo de guerras, em respeito ao que os entrevistados contavam”, explica o jornalista.

Na Guerra de Santa Dica, 79 homens da Polícia Militar, apoiados por jagunços, cercaram e fuzilaram 11 integrantes do Exército dos Anjos, em outubro de 1925. A mulher sobreviveu. “Ela amedrontava padres e coronéis”, conta o diretor. “Existe uma lenda que conta que ela morreu quando criança e ressuscitou.”

Nas mãos da companhia, outros três figuras - Lampião, Zapata e Pantera Negra - fazem um sobrevoo sobre a Guerra do Pau-de-Colher, a Guerra de São Bonifácio e a Guerra do Gatilheiro Quintino. “Estudamos os nove conflitos e experimentais quais davam mais elementos cênicos”, explica o diretor. 

No primeiro ato, a comédia traz moças de inferninhos da Transamazônica e os cantadores sertanejos da Belém-Brasília no meio dos festejos para a inauguração de um bar. 

Ao aproximar o olhar do cotidiano, por entre as figuras exaltadas, a cena inscreve-se incluindo microrrelações de poder, entre o dono do bar (Roberto Kroupa) e seu empregado (Nei Gomes), que está bêbado e insiste em recordar o passado. No show, o sujeito ébrio vestindo uma camisa do Brasil interrompe a apresentação e é atacado: “A memória atrapalha os negócios!”, grita o patrão enquanto agride o homem. 

A Guerra de São Bonifácio, disparada por trabalhadores, e liderada uma mulher, Jane Resende, e o homossexual Victor Hugo tem semelhanças com o Gatilheiro Quintino encabeçada por um líder guerrilheiro. “Foram pessoas que não tinham ideologia nem ligação com partidos políticos. Eram indivíduos marginalizados que viram a injustiça e não se conformaram”, conta Nossa.

Durante a estadia na Bahia, tais cenas receberam a provocação do público. A temporada permitiu que o espetáculo entrasse no fuso dessas cidades, aponta Gomes. “Aprendemos a diminuir o ritmo da peça e procurar sentir como ela acontecia. Além der absorver o modo de falar, para que a fala paulista não ficasse postiça”, diz o ator.

Para o diretor, o diálogo estabelecido se deu ao retomar a memória comum. “Eles chegavam até nós e contavam detalhes. São imagens muito vivas.” 

Para o jornalista que assistiu sua reportagem ir para o palco: “Minhas palavras ganharam movimento e a peça prosseguiu dando o respeito que esses grandes e desconhecidos líderes merecem”. 

GUERRAS DESCONHECIDAS

Unesp. Rua Dr. Bento Teobaldo Ferraz, 271. Barra Funda, tel. 3393-8530. Sábado (21), às 20h; domingo (22), às 19h. Grátis. 

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