Amanda Perobelli / Estadão
Amanda Perobelli / Estadão

'Rent', um dos mais musicais mais amados pelos fãs, ganhará versão brasileira

Projeto está prestes a sair do papel e estrear no Teatro Shopping Frei Caneta, em São Paulo, em dezembro

Ubiratan Brasil , O Estado de S. Paulo

19 de setembro de 2016 | 06h00

Parecia apenas uma conversa para matar o tempo – no camarim de Cazuza, o Musical, há alguns anos, enquanto se preparavam para mais uma apresentação, os atores se divertiam confessando o espetáculo que sonhavam encenar. Títulos diversos foram lembrados, alguns rechaçados, outros aplaudidos, até despontar Rent. Imediatamente, como um mantra, todos suspiraram em uníssono: ali estava o musical de suas vidas, aquela celebração da perseverança diante da morte e das adversidades era tudo o que eles queriam mostrar para inúmeras plateias. Por que não formar um grupo e bancar um projeto? Claro, seria ótimo. 

A euforia, no entanto, terminou quando o elenco foi convocado para o aquecimento e assim, um a um, eles voltaram a pousar em terra firme. Todos, menos Bruno Narchi. “Eu mantive aquela determinação, pois percebi que era a peça que todos amavam, mesmo sem ter visto”, disse ele que, persistente, preparou-se para escalar uma montanha de entraves financeiros e problemas logísticos, mas cujo topo ele pretende atingir em dezembro, quando Rent estrear no Teatro Shopping Frei Caneca.

Será a consagração de um projeto de dois anos, período em que a paixão de Bruno viralizou e contaminou um punhado de artistas dispostos a trabalhar por uma causa e não um fim. “Quando as pessoas souberam que eu estava decidido a montar Rent, choveram perguntas sobre audições, data de estreia, uma ansiedade que se espalhou pelas redes sociais”, conta o ator que, no real papel de produtor (é sócio-diretor na empresa Ibelieve R.A.), aliou-se a Bel Gomes (da Beleleo Prods) para levantar o projeto. Juntos, prepararam um plano de captação de recursos que totaliza R$ 2,1 milhões. Algumas cenas já foram apresentadas a potenciais investidores, que ficaram bem impressionados com o que viram. Mas a luta continua e o tempo corre.

“Como se trata de um musical que toca especialmente as pessoas, decidimos não fazer audições, mas convidar os profissionais para todas as funções”, conta Bel. Não foi preciso muita procura, pois os “sim” eram quase gritados antes mesmo de terminada a consulta. Dessa forma, o grupo começou a crescer com a chegada de mais atores tarimbados do teatro musical brasileiro, como Thiago Machado e Ingrid Gaigher, donos de vozes poderosas e cativantes. Kátia Barros vai assinar a coreografia, enquanto os figurinos vão trazer a assinatura de Fause Haten, que estará em sintonia com a cenografia de André Cortez e o visagismo de Leopoldo Pacheco.

Daniel Rocha será o diretor musical e vai contar com a elaborada versão brasileira das letras originais, trabalho que vem sendo feito por Mariana Elisabetsky. Finalmente, a técnica dessa seleção será Susana Ribeiro, que morava em Nova York na época em que Rent transformou-se em comoção, nos anos 1990.

Escrito por Jonathan Larson, o musical (que teve uma montagem profissional no Brasil em 1999) apresenta uma série de jovens em momento conflitante da vida. Roger (Thiago), por exemplo, é um compositor que sonha com a canção que o tornará venerado para sempre, enquanto Mark (Bruno) quer se tornar famoso depois de dirigir um grande filme. Já Mimi (Ingrid) é uma bailarina que passa por uma desilusão amorosa. São amigos, com vinte e poucos anos e rodeados por dúvidas, pelas necessidades amorosas e sexuais e, claro, sempre atrás do dinheiro para pagar o aluguel.

Para escrever o texto, Larson baseou-se na ópera La Bohème, de Puccini, e, se na época do compositor italiano o “mal do século” era a tuberculose, Rent tem a aids como grande estigma. É compreensível, pois o musical foi escrito quando o vírus ainda impressionava pela força da mortandade. E Larson não chegou a ver sua obra encenada: morreu no dia 25 de janeiro de 1996, vítima de um aneurisma cerebral, dois dias antes da estreia de Rent.

“Talvez venha daí a paixão por esse musical, que tanto prega a celebração da vida”, acredita Ingrid. “E é um espetáculo brechtiano, pois convida a uma reflexão”, completa Thiago. Os dois atores dividem hoje os ensaios com os trabalhos com que estão em cartaz. “A ideia será encenar Rent às terças e quartas-feiras, para liberar o elenco para outras montagens nos finais de semana”, conta Bruno, que se prepara para um plano B: montar uma produção enxuta que fique muito tempo em cartaz. Uma determinação que traduz o espírito do espetáculo, “Rent me representa”, diz ele. 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.