CAIO GALLUCCI/ DIVULGAÇÃO
CAIO GALLUCCI/ DIVULGAÇÃO

'Rent' trata de questionamentos diários ao revelar a fragilidade da vida

Musical que estreou na Broadway em 1996 tem trama que começa justamente na véspera do Natal, na cobertura de uma antiga editora musical

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

12 Dezembro 2016 | 06h00

A estreia tinha de acontecer próxima do Natal, planejava o ator e produtor Bruno Narchi, quando pensava em sua montagem do musical Rent, um dos mais queridos espetáculos desse gênero.

A determinação – quase uma fixação – norteou seus esforços e de sua parceira na empreitada, a produtora Bel Gomes, e o presente finalmente será desembrulhado na quarta-feira, 14, com a estreia do musical no Teatro Shopping Frei Caneca. “Será nesse dia que finalmente sentirei a realização de um desejo”, conta Narchi.

De fato, desde 2014, ele ambiciona montar Rent, musical que estreou na Broadway em 1996 e cuja trama começa justamente na véspera do Natal, na cobertura de uma antiga editora musical. É por ali que vai acontecer a reunião de um grupo de jovens que, em apenas uma noite, terão suas vidas marcadas por encontros e desencontros, amizade, saudade, solidão, companhia, perda e, acima de tudo, amor. “Apesar de seus 20 anos, Rent continua atual por mostrar a fragilidade da vida e a força dos sentimentos”, continua Narchi.

Ator de invejável atitude cênica e voz aveludada, Bruno Narchi notabilizou-se por uma série de espetáculos como Cinderella, Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz, Vanya e Sonia e Masha e Spike, Mamma Mia! e Rock in Rio – O Musical, entre outros. Foi justamente durante a temporada de Cazuza que ele descobriu compartilhar com seus colegas o fascínio por Rent. “Apesar de quase ninguém ter visto nenhuma montagem (no Brasil, houve uma profissional, em 1999), todos o colocavam no topo da lista de suas preferências”, relata o ator que, desde a época, decidiu estrear na carreira de produtor com uma montagem do espetáculo.

Foi um trabalho árduo. Narchi uniu sua empresa, Ibelieve R.A., com a da produtora Bel Gomes (Beleleo Prods) para levantar fundos. O orçamento mais enxuto apontava R$ 2,1 milhões, mas a dupla enfrentou o tradicional olhar obtuso de financiadores, que temem associar sua marca a cenas de sexo e não percebem que, com isso, desprezam obras consagradas.

Assim, o processo de captação continua, mas a previsão de estreia foi confirmada graças ao apoio que eles receberam dos artistas. “Realizar essa produção era o sonho de muita gente, por isso foi possível”, atesta Bel.

Assim, mesmo sem fazer promessas, Bel e Narchi atraíram uma legião de talentos que construiu o Rent nacional. Não foram feitas audições, apenas convites.

Com isso, formou-se um elenco que, além de Narchi, ainda tem Myra Ruiz, Diego Montez, Thiago Machado, Ingrid Gaigher, Mauro Sousa, Max Grácio, Priscila Borges, Thuany Parente, Carol Botelho, Lívia Graciano, Zuba Janaina, Bruno Sigrist, Arthur Berges, Philipe Azevedo, Felipe Domingues, Guilherme Leal e Kaíque Azarias. Todos dispostos a trabalhar em sessões marcadas para dias em que habitualmente estariam de folga, como terça e quarta. “Escolhemos esses dias para não atrapalhar quem estará em cartaz em outra produção que garanta um salário”, explica Narchi.

É essa entrega pela arte – algo cada vez mais raro em um mundo marcado pela economia – que garante o charme de Rent e permite que os atores revelem a extensão de seu talento. Myra Ruiz, por exemplo, que termina uma bem-sucedida temporada de Wicked, surpreende ainda mais como Maureen, uma artista performática.

Também Diego Montez, que ainda não teve um papel à altura de seu talento, encanta como Angel, a Drag Queen que é percussionista de rua. “Todos assumiram a responsabilidade pela existência desse musical, portanto, há uma entrega generosa”, confirma Narchi.

Ele vive Mark, jovem cineasta que quer se tornar famoso após dirigir um grande filme. Ele divide um apartamento com Roger (Thiago Machado), músico que integrou uma banda de punk rock, mas perdeu sua inspiração ao se ver diante da morte.

Eles enfrentam o problema do atraso do aluguel, cobrado por Benny (Mauro Sousa), antigo amigo e agora proprietário do imóvel. E, ao lado do edifício, estão acampados vários sem-teto. “Esse é um dos traços modernos que trouxemos para o espetáculo”, conta a diretora Susana Ribeiro. “A ocupação é um fato, está diante de nós e também no musical. O público atual talvez não se interessasse pela realidade dos anos 1990, como mostra o original.”

A contemporaneidade influenciou outros detalhes da montagem. Os figurinos criados por Fause Haten, por exemplo, trazem a praticidade exigida nos tempos atuais, sem perder a beleza, e o cenário planejado por André Cortez (vigas de ferro que tanto delimitam o espaço interno do apartamento como servem de base para postes de luz, identificando as cenas externas) permite mais fluência ao ritmo da trama.

Daniel Rocha imprime um tom nostálgico em sua direção musical e Kátia Barros criou uma coreografia recheada de vitalidade. “Surpreendi o elenco com novas propostas”, diverte-se ela, que criou uma belíssima dança para o grande hit de Rent, La Vie Boheme.

RENT. Teatro Shopping Frei Caneca. Rua Frei Caneca, 569, 7º andar. 4ª (14), 2ª (19), 3ª (20) e 4ª (21), 21h. R$ 100. Volta 10/1. Até 29/

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