Wilton Júnior/Estadão
Wilton Júnior/Estadão

Renata Sorrah volta à cena em 'Krum'

Sensível, peça aborda um retorno amargo

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

24 de maio de 2015 | 05h00

Em sua curta existência, o dramaturgo israelense Hanoch Levin (1943-1999) passou por pelo menos sete guerras. Mas nenhum estrondo, nenhuma imagem de uma cidade destruída reverberam em sua obra – os estilhaços são internos, no rasgo da alma. “O conflito armado não aparece, mas a impressão é que existe um campo minado escondido, prestes a explodir a qualquer momento”, comenta a atriz Renata Sorrah, que novamente se une à Companhia Brasileira de Teatro e ao diretor Marcio Abreu na montagem de Krum, peça que estreia dia 12 de junho no Teatro Anchieta do Sesc Consolação, depois de bem sucedida temporada carioca, no Oi Futuro Flamengo.

“A vida de pessoas vitoriosas, já conhecemos no teatro. Aqui, pretendemos falar daquelas que tentam algo e não conseguem”, continua a atriz. De fato, Krum, cuja primeira montagem aconteceu em 1972, fala das impossibilidades. O título da peça se inspira no nome do rapaz (vivido por Danilo Grangheia) que, depois de um período em outra cidade, volta para seu bairro, onde reencontra a mãe e conhecidos. Não se trata, porém, de um retorno glorioso. “Mãe, estou de volta sem ter nada conquistado”, anuncia ele, logo nos primeiros minutos.

Está ali a chave desse espetáculo, certamente um dos mais importantes do ano: Krum é um derrotado que busca se reconciliar com seu passado, mas reencontra outros fracassados – em resumo, um futuro frustrado e um presente devastado. Cenário que faz lembrar uma dramaturgia clássica, a do russo Anton Chekhov, em especial As Três Irmãs. “Ele, além de Beckett e Brecht, são influências fundamentais na obra de Hanoch Levin”, conta o diretor Marcio Abreu. “Autores que modificaram a geografia teatral ao longo dos anos e continuam reverberando no trabalho de muita gente. Mas, sabemos que aos poucos vamos nos liberando de nossas referências para alcançar singularidade. É o caso de Levin.”

Entre as diversas cenas significativas de Krum, uma se destaca justamente por ilustrar com precisão a condição de todos os personagens da peça – Krum se encontra com a mãe (interpretada por Grace Passô) e a conversa logo se transforma em um ajuste de contas, com ela arremessando cadeiras que estão no palco até formar uma montanha. “O mundo só tem isso pra te dar”, ela esbraveja repetidamente diante do filho atônito e emudecido.

“Hanoch Levin tem o cuidado de dimensionar os sentimentos que temos diante da vida, da morte e do tempo que passa em uma peça densa mas delicada”, acredita Grace, também diretora talentosa. De fato, Krum é uma história com dois enterros e dois casamentos. As pessoas do bairro onde sempre viveu o protagonista não se orgulham de grandes feitos. “Tudo é ordinário, no sentido de ser comum demais”, comenta Renata Sorrah, intérprete de Tudra, ex-namorada de Krum que, depois de abandonada, decide se casar com o nada brilhante Tachtich (Rodrigo Ferrarini).

“É como se fosse a saga do herói desajustado”, comenta Danilo Grangheia, que vive o personagem-título. “Ao retornar, Krum não traz nada a não ser a experiência de alguém que falhou e reencontra pessoas ansiando por alguma perspectiva de mudança. Ele também busca, ainda que minimamente, uma chance de encontrar algo novo.”

Entre as duas cerimônias, acontece uma sequência de cenas curtas, o quadro da vida dos habitantes de um bairro remoto. “É uma peça sobre pessoas. O que está em jogo é a matéria humana. Habitam o mundo de Krum seres pequenos, sem pudor na palavra, vivendo sob um teto baixo. Há um olhar, ao mesmo tempo, cruel e generoso sobre vidas mínimas ou, como em Chekhov, sobre o que existe de mínimo no ser humano”, observa Marcio Abreu. “Há no Chekhov do entretempo, no Beckett do pós-guerra, no Levin do final do século 20 e nós, hoje, algo em comum. Enquanto o mundo turbulento destila suas violências, as pessoas tentam seguir suas vidas, muitas vezes, sem brilho, confinadas em suas casas ou alimentando expectativas, sonhos de consumo, esperança de dias melhores.”

Segundo encontro. À frente da Companhia Brasileira de Teatro, de Curitiba, ele comanda a segunda parceria com Renata Sorrah em sua pesquisa por textos que reflitam com precisão e lirismo a realidade. O primeiro encontro aconteceu no final de 2012, com a estreia, no Rio, de Esta Criança, peça do francês Joël Pommerat na qual disseca infelicidades familiares. Em Krum, o incentivo foi a forma como Hanoch Levin apresenta o dualismo entre conformismo e necessidade de mudança.

“O que mais me atraiu na escritura de Levin foi seu caráter eminentemente teatral”, explica o encenador. “Sua obra precisa da cena para existir. Precisa de um conceito ampliado de dramaturgia para se reinaugurar como potência teatral. Além disso, eu queria jogar luz sobre pessoas. Vê-las simplesmente. Mostrar seus contornos, seus limites, seus movimentos internos, suas sensibilidades e seus fracassos.”

Nesse contexto, surgem os outros personagens da peça, aparentemente apáticos, mas ricos em detalhes humanos. Como o casal de desapaixonados Tugati (Ranieri Gonzalez) e Dupa (Inez Viana) – ele vive eternamente doente, ela pretende fugir para a ilha de Capri com o canastrão italiano Bertoldo (Rodrigo Bolzan). “Tugati é um cara dessa comunidade que acredita ser um homem doente, tem a certeza de que está doente e, quando fica realmente doente, ele morre”, conta Gonzalez, cuja delicada interpretação traduz com precisão a fragilidade de Tugati.

O trabalho do elenco, aliás, completado por Cris Larin e Edson Rocha, que vivem outro casal, Felicia e Dolce, é um dos pontos altos da encenação. “Propus que os atores fizessem outros personagens. Todos eles passaram, a fundo, por várias funções dentro da peça. Só defini quem faria o quê na última etapa do trabalho de criação. Isso fez com que todos se assistissem e também percorressem a história, a estrutura da peça e seus múltiplos sentidos, com profundidade, desapego e entrega. Há ainda a possibilidade de eles alternarem papéis. Isso pode acontecer a qualquer momento”, explica Marcio Abreu.

Ensaios. Tanto tempo na sala de ensaios trouxe ganhos preciosos – em cena, os atores não desperdiçam gestos ou movimentos, tudo que é mostrado tem uma função. “É um trabalho sutil e delicado”, completa o encenador, que contou com o valioso auxílio de Marcia Rubin na direção de movimentos. “É percepção e consciência. Isso pode acontecer inclusive em cenas ou numa peça em que tudo seja imóvel. É um trabalho mais interno que externo.”

“Aqui, a sensação de sufoco predomina: o teto parece baixo, a respiração é curta, todos querem ir para algum lugar, mas não conseguem. Acho terno falar sobre pessoas que tentam, mas se veem impossibilitados”, comenta Renata Sorrah, que se entrega totalmente ao seu personagem, porque todo o material com o qual a peça está lidando é essencialmente dramático. Afinal, nada é mais belo que o equilíbrio precário. “Mesmo não estando em tempo de guerra declarada, a peça traz personagens em estado beligerante, o que permite que cada um diga tudo, sem censura”, observa Rodrigo Bolzan. Nada a perder – como diz o próprio Krum, a certa altura da peça, “para algumas pessoas a palavra ‘impossível’ não é uma brincadeira”. 

KRUM

Sesc Consolação. Rua Dr. Vila Nova, 245. 6ª e sáb., 21 h; dom., 18 h. R$ 40. Até 26/7. Estreia em 12 de junho. 

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