Lua Fioli
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Renata Ricci relembra, em peça, vaias recebidas por Carmen Miranda no Rio

Atriz está no monólogo ‘Pra Você Gostar de Mim’, que terá transmissão online gratuita nesta sexta e sábado

Bruno Cavalcanti, Especial para o Estadão

29 de outubro de 2021 | 15h00

Em 2006, quando compôs o elenco de Sweet Charity, a montagem de Charles Möeller e Claudio Botelho para o clássico estrelado por Cláudia Raia e Marcelo Médici, Renata Ricci já contabilizava trajetória artística em sua cidade natal, São Bernardo do Campo. A obra foi divisor de águas na carreira da paulista, que, dali, alçou seu nome ao panteão dos principais nomes do teatro musical, estrelando títulos como Avenida Q, Gypsy e As Bruxas de Eastwick, além de estrear como diretora, dramaturga e produtora em French Kiss, cabaré no qual celebrou a primeira década de trajetória.

De lá até aqui a artista co-estrelou obras como As Atrizes, de Juca de Oliveira, reativou o antigo conjunto musical Cantrix, com o qual percorreu casas de espetáculo com show baseado no repertório de Gilberto Gil e dirigiu espetáculo da dramaturga estreante Thereza Andrada, Todas as Pétalas que Chorei por Você.

“Desde a escola de teatro, as pessoas me pediam definições para saber se sou atriz, cantora, bailarina, e sempre disse que sou artista. Vou me descobrindo. Descobri a direção por necessidade, e quando vi, tinha prazer em olhar de fora. Quando dirigi o Pétalas vi o quanto é delicioso enxergar o caminho do ator. Eu como atriz entendo o que é preciso para chegar a alguns lugares. A produção também foi pela necessidade, e tenho prazer nesse trabalho”, garante.

Ao celebrar 15 anos de trajetória, neste 2021, Ricci viu muitos de seus planos serem congelados pela pandemia, entre eles o lançamento de um EP do Cantrix com as canções de Gil (dois singles já chegaram às plataformas) e o musical As Irmãs Miranda, no qual pretende narrar a história de parceria entre as cantoras Carmen e Aurora Miranda.

“A Carmen não teve as devidas homenagens, e se ela não teve, que dirá a Aurora, que também foi muito longe. Ela tem o filme da Disney em que contracena com o Zé Carioca, e muita gente acha que é a Carmen. Ela foi muito importante. Teve um momento em que desistiu, mas ela também levou nosso nome para longe”, conta.

“Essa relação de duas irmãs, dois seres humanos conectados fortemente pelo coração me encanta. O carinho que uma tinha pela outra, uma relação muito bonita, quero levar para o palco um musical que fale, sim, das artistas, mas dessa conexão que é uma das mais especiais que se pode ter”.

Antes, contudo, a artista estreia Pra Você Gostar de Mim, monólogo musical no qual dá vida a Carmen Miranda a partir de um recorte muito específico: a noite de 15 de julho de 1940, quando, ao voltar ao Brasil para única apresentação no Cassino da Urca, a cantora teria sido recebida por vaias após cantar South American Way e saudar a plateia com um “good night, people”.

“Essa passagem específica, quando li na biografia, me machucou. Eu me coloquei no lugar dela enquanto artista e enquanto mulher apaixonada pelo ofício, alguém que abre mão de tantas coisas para que seu ofício ocorra da melhor maneira possível. E ela, super apaixonada pelo país, como era, ser recepcionada por vaias depois de tantos anos longe divulgando a imagem e o nome do país com muito carinho, fiquei muito tocada. E descobrir quais foram os motivos dessas vaias”.

O espetáculo cumpre sessões nos dias 29 e 30 de outubro no canal oficial de Ricci no YouTube. As apresentações funcionam como pré-estreia antes da obra chegar aos palcos. “Por ser uma verba reduzida e querermos contar uma história com cenas e números musicais, a maneira de resolver foi online. Para garantir a qualidade, decidimos fazer gravado, e não a simples transmissão de um show, porque temos uma história, uma passagem de tempo, e sem dizer a dificuldade do momento que vivemos, da necessidade da conexão, de ver gente. Acima disso, queremos fazer uma homenagem calorosa e carinhosa”.

Com texto assinado por Guilherme Gonzales e direção dividida entre Ricci e Celso Correia Lopes (sob a direção musical de Reinaldo Sanches), o musical foca Carmen numa sessão de terapia após o ocorrido, ainda que, de acordo com o biógrafo da cantora, Ruy Castro, as vaias nunca tenham de fato ocorrido. 

“Ela sentia que havia sido vaiada pelo público dela, e não era verdade. Queremos desdobrar essa história e mostrar o que estava por trás dessas vaias. Aí o ponto de partida do projeto: o que isso talvez tenha gerado dentro dela e o que trouxe de questionamentos”, finaliza Ricci. As sessões acontecem às 20h e são gratuitas.

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