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'Querido Brahms' vai além do triângulo amoroso

Peça dirigida por Tadeu Aguiar faz público sair do teatro bem informado sobre contexto artístico da época

João Marcos Coelho, Especial para o Estado

02 de fevereiro de 2015 | 03h00

Não é fácil usar como matéria-prima no teatro criadores das outras artes, caso de Querido Brahms, e mesmo da ciência, como faz o ótimo Oswaldo Mendes em As Insubmissas. O risco é duplo: banalizar o objeto do tributo, transformando sua vida em novela de TV ao enfocar apenas os lances sentimentais como o triângulo amoroso entre o casal Schumann e Brahms. Ou então, quando há a preocupação de dar a correta dimensão da qualidade de invenção da criação destes gênios, corre-se o perigo de cair num didatismo meio chato, que acaba mais afastando do que atraindo a curiosidade do grande público.

A divulgação da peça tenta transformar Clara, Robert Schumann & Johannes Brahms num triângulo amoroso avançadíssimo para os padrões morais do século 19. Mas não é isso que acontece no palco. Ainda bem. Alguém que jamais ouviu falar deles sai do teatro bem informado sobre o contexto artístico do romantismo musical alemão, as posições revolucionárias de Schumann, um militante que atuou como crítico além de genial compositor; e ainda por cima aplaude a emocionante melodia do seu mais célebre lied (canção para voz e piano, gênero no qual Schubert e Schumann foram campeões absolutos no século 19, o primeiro com mais de 600 canções, o segundo com cerca de 250), Im wunderschonen Monat Mai, ou em tradução livre No belo mês de maio. Pena que Olavo Cavalheiro (Brahms) cante em alemão versos como estes: “No belo mês de maio, quando os botões abriam em flor, também em meu coração desabrochou o amor. No belo mês de maio, os pássaros todos cantando, meu desejo e ardor eu pude te confessar”. 

A ação concentra-se no momento crucial da vida dos três, no inverno de 1854. Clara, 43 anos, convoca Brahms, 20 anos, para retornar a Düsseldorf, onde ele estivera pela primeira vez em setembro de 1853 e fora saudado por Robert, 45 anos, como o próximo gênio da música alemã. Este se atirara no Reno gelado, tentando suicidar-se, num gesto de loucura, consequência dos estágios finais da sífilis contraída vinte anos antes. Em 60 minutos, Werner Schünemann dá um show personificando o compositor atormentado; Carolina Kasting dá conta de Clara e Olavo Cavalheiro não compromete. O maior mérito vai para José Eduado Vendramini, por sintetizar de modo atraente questões complexas de estética musical, como o embate entre os partidários da música instrumental pura e os arautos da chamada obra de arte total de Wagner.

As poucas licenças poéticas não atrapalham. Brahms é o apaixonado por Clara, nunca o contrário, segundo Styra Avins, editor da correspondência de Brahms. Mas a inversão faz sentido. O jovem que entrou na casa dos Schumann em 1853 era um perfeito modelo do herói romântico então na moda: belo rosto anguloso, cabelos lisos e loiros, alto, silhueta esguia. Muito distante de sua imagem moderna, a do velho gordo, barrigudo e barbudo do final da vida. 

Ele ajudou a criar os sete filhos do casal Schumann após a internação e sobretudo depois da morte de Robert, em 1856. Assim que Robert morreu, eles passaram algumas semanas juntos de férias no verão na Suíça (ela com duas filhas, ele com sua irmã menor a tiracolo). Quando todos esperavam o anúncio de que se casariam, nada disso aconteceu. Continuaram amigos íntimos até o final de suas vidas – ela morreu em 1896, ele no ano seguinte. Brahms teve várias outras aventuras amorosas com cantoras e atrizes, mas jamais casou-se. 

A julgar pelas cartas de Brahms a Clara (ele destruiu as dela), o romance foi incendiário – apesar de platônico. Cada um tocou a vida de seu lado. Brahms, após consolidar-se como pianista e regente coral, mudou-se em 1873 para Viena, onde viveu seus últimos 24 anos de vida e consolidou-se como o grande compositor europeu ao lado e também esteticamente contrário a Wagner, como previra Robert.

QUERIDO BRAHMS

Teatro J.Safra. Rua Josef Krysss, 318, Barra Funda, 2626-0243. 6ª, 21h30; sáb., 21h; dom., 20h. R$ 50/R$ 60. Até 29/3.

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