Reginaldo Azevedo
Reginaldo Azevedo

‘Quebra-Nozes’, da Cisne Negro, chega à 36ª temporada

Com mais de 80 artistas no palco, tradicional espetáculo celebra longevidade, mas sente impacto no setor e fuga de talentos

Leandro Nunes, O Estado de S. Paulo

12 de dezembro de 2019 | 08h00

Para uma produção que nasceu ainda amadora nos anos 1980, fazer temporadas anuais ininterruptas é um grande sonho de Natal. Em 2019, a Cisne Negro Cia de Dança completa o 36.º ano apresentando o espetáculo O Quebra-Nozes, de Tchaikovski, desta quinta, 12, a dia 22, no Teatro Alfa. Tradicional, o balé musical criado pelo russo em 1891 movimenta há quase quatro décadas a vida de Hulda Bittencourt, fundadora da companhia, e sua filha, Dany, que segue como diretora artística de uma montagem com ritmo de carnaval. “Já convidamos os solistas da próxima temporada de 2020. Ao fim desta temporada, já começamos a próxima produção”, diz Dany. 

Após uma audição realizada em agosto deste ano, Dany escolheu parte do corpo dentre mais de 200 candidatos. “O Brasil tem muitos artistas prontos para dançar”, afirma. Até estrear em dezembro, a diretora costuma organizar uma rotina de ensaios que dê conta de uma temporada de quarta-feira a domingo, com duas apresentações sábado e domingo. 

Além das audições, o espetáculo mantém a participação de bailarinas da Usina da Dança, um projeto social do Instituto Oswaldo Ribeiro de Mendonça com jovens do Nordeste do País. “O desejo seria manter o trabalho por cinco, seis, oito meses, o que significa a necessidade de mais recursos”, diz Dany. 

Com um orçamento na ponta do lápis – e todas as músicas decoradas na cabeça –, a diretora se surpreende ao reconhecer que o cenário não segue favorável para espetáculos mais tradicionais. Parte do financiamento da temporada vem de mecanismos de incentivo estaduais e do Alfa. Na Lei de Incentivo à Cultura, antiga Lei Rouanet, a diretora conta que não houve captação. 

E a promessa de voltar todos os anos para os festejos também envolve desafios internos. Por não conseguir absorver bailarinos de modo contínuo, o projeto ganha por ter sangue novo a cada temporada, mas deixa de concentrar talentos. “Quando começo a pensar no elenco do próximo ano, quase sempre descobrimos que bons bailarinos foram aprovados para dançar no exterior, na Europa e nos EUA. É claro que ficamos felizes, mas é uma pena que o Brasil não consiga oferecer boas perspectivas para artistas daqui”, ressalta ela.

Se a rotatividade segue como regra, um clássico de Natal não é tão afeito a mudanças. A solução da diretora é se manter antenada sobre novas tecnologias e apetrechos que possam refrescar a história de Clara e seu boneco Quebra-Nozes. No caso de turnês, o espetáculo não viaja com três caminhões de cenário e propõe uma solução digital. “Usamos projeções das ambientações da história em todas as viagens”, conta Dany. Foi assim que o público de Franca, Bauru e Jundiaí viu a versão de O Quebra-Nozes deste ano. 

Por outro lado, o que surpreende é a fidelidade do público, explica a diretora. “Pessoas já chegaram até nós para contar muitas histórias, de que assistem todos os anos, que costumam presentear os familiares com os ingressos do espetáculo, e que sempre trazem alguém que vai pela primeira vez.”

Uma das provas está na aguardada sessão com preços populares – neste ano, marcada para 18/12 –, em que público ocupa os mais de 1.100 lugares do Teatro Alfa. “Percebemos que o espetáculo provoca a imaginação e em troca recebemos histórias íntimas que nos fortalecem a seguir em frente”, diz. 

Neste ano, o que não mudou foi a trama da jovem Clara e seu brinquedo preferido. Inspirado em uma adaptação do conto francês Quebra-Nozes e o Rei dos Camundongos, o espetáculo parte da alegria de Natal para criar um mundo de imaginação. Na noite do festival, Clara recebe diversos presentes, mas é o boneco Quebra-Nozes que a faz perder o sono. Enquanto todos dormem, a menina levanta às escondidas para brincar mais um pouquinho. Exausta, ela adormece e em sonhos imagina um mundo surreal, com ratazanas enormes e seu Quebra-Nozes feito agora de carne e osso. Em sua criação, o espetáculo também propõe uma viagem de sabores pelo mundo, do chocolate espanhol, passando pelo café da Arábia e o chá da China até a bengala doce da Rússia. 

Neste ano, apresentam-se duas duplas de solistas: Marcelo Gomes e Alice Mariani, e Cícero Gomes e Manuela Roçado.

Uma heroína, muitos nomes

A origem da história que inspirou o balé de Tchaikovski serviu para embaralhar a identidade da protagonista de O Quebra-Nozes. Foram muitos nomes para a heroína: Maritchen, Marie e Clara. No início, seu nome era alemão, mas, após a Primeira Guerra Mundial, a Rússia rebatizou a personagem com o nome Macha.

O QUEBRA-NOZES

TEATRO ALFA. R. BENTO BRANCO DE ANDRADE FILHO, 722. TEL.: 5693-4000. 4ª, 5ª E 6ª, 20H30; SÁB., 17H E 20H; DOM., 15H E 18H. R$ 80/R$ 160. ATÉ 22/12. ESTREIA 12/12. 

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