GUTO MUNIZ
GUTO MUNIZ

Grupo Quatroloscinco encena a extinção das virtudes em 'Fauna'

Grupo mineiro chega a São Paulo com ‘Fauna’, peça-conversa em que público participa ativamente

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2019 | 03h00

Para além de ideias fragmentadas, é da lista de desafios do teatro contemporâneo que a presença do público seja, se não transformada, revista. De alguma forma, o hábito de sentar-se para assistir a um espetáculo já antecipa o que está por vir. Com o intuito de embaralhar essas posições, o grupo mineiro Quatroloscinco – Teatro do Comum estreia nesta sexta, 15, o espetáculo Fauna, no Sesc Pompeia. 

A montagem vem de uma turnê pelo Brasil na programação do Palco Giratório, um panorama brasileiro da produção de artes cênicas no Brasil, do Sesc. Fauna já passou por 30 cidades e o título da montagem sugere o universo que o grupo deseja contemplar, conta o ator e autor Assis Benevenuto. “É uma forma de olhar o humano não distanciado da natureza ou como sujeito independente dela.”

Ao lado do ator Marcos Coletta, que também assina o texto, Benevenuto explica que a peça surge a partir de diferentes inquietações, muitas delas temáticas, outras formais. “Desde o início, não queríamos contar uma história ou representar personagens”, aponta. “Dos assuntos que nos interessam, a filosofia é uma área que recebeu atenção especial. O livro O Circuito dos Afetos, do filósofo Vladimir Safatle, destaca temas como violência, desejo e liberdade e foram trazidos à cena como objeto de debate e reflexão. Ele entende que a política como distribuição de bens também deveria funcionar na distribuição de afetos. Mas, quando se muda esse aspecto social, é possível transformar a política”, conta o ator.

Tendo em vista que a violência torna escassa a ação afetiva buscada pela obra, Fauna encena os riscos do fim das virtudes, no qual a desconexão entre as pessoas é tanto causa quanto sintoma. Para tanto, a peça reconfigura a forma de o público estar e participar das sessões. “Nós queríamos radicalizar essa posição da plateia de ser ativa só no pensamento”, conta Benevenuto.

Inspirados em uma das oficinas que o grupo ofereceu durante o Palco Giratório, o Quatroloscinco estimulou os participantes a remontar a própria arqueologia familiar, resgatando menos a árvore genealógica do que as narrativas desses encontros. “Percebemos que o sentido de identidade ultrapassa o que se carrega apenas no indivíduo, alcançando outros tempos e lugares”, explica. 

E o Quatroloscinco, então, concebe uma delicada fauna – com texturas reais e simbólicas, de memórias e rastros, marcada por movimentos indiretos, mas afirmativo em relação ao público. “No início, solicitamos uma atitude da plateia, que deve realizar uma ação antes de entrar no teatro”, conta ele.

Para uma peça que exige participação do público, o grupo realizou testes. Benevenuto conta que, após diversas tentativas, eles fizeram uma descoberta que comprova a coexistência entre artista e audiência. “Abrimos ensaios e, em um dia, percebemos que já não era necessário voltar ao processo de criação. Fauna tinha nascido porque o elemento público não faltava mais.”

FAUNA. Sesc Pompeia. R. Clélia, 93. Tel.: 3871-7700. 5ª, 6ª, sáb., 21h30, dom., 18h30. Estreia 15/2. Até 10/3. 

Tudo o que sabemos sobre:
Quatroloscincoteatro

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.