CAIO GALLUCCI
CAIO GALLUCCI

Quatro artistas formam produtora para montar peças em horários alternativos

Os novos produtores escolheram temas caros aos jovens como insegurança e solidão

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2018 | 06h00

O recente sucesso do musical Rent (fãs frequentavam sessões fantasiados como seus personagens mais queridos) acendeu uma luz: um trabalho de baixo orçamento mas de grande qualidade conseguiu lotar várias sessões, durante várias semanas, mesmo apresentado em dias não convencionais, como terças e quartas-feiras. “Ressignificamos o conceito de espetáculo alternativo”, conta o ator Bruno Narchi que, ao lado da produtora Bel Gomes, realizou o sonho de montar Rent a um custo baixo e contando com um elenco também apaixonado, disposto a trabalhar nos dias de folga. A luz, portanto, indicava um mercado a ser explorado.

Foi o que pensaram Bel e Narchi que, aliados aos fiéis parceiros Leopoldo Pacheco e Thiago Machado, decidiram fundar uma produtora para montar espetáculos pouco custosos, mas de grande nível artístico. Um grupo disposto a trabalhar por uma causa e não apenas por um fim. 

Da euforia, eles passaram para a prática e nasceu a companhia... Bem, ela ainda não tem nome, mas já exibe uma programação: no final de outubro, está prevista a estreia, no Teatro Faap, do musical Tick, Tick... Boom!, de Jonathan Larson, o mesmo autor de Rent. No primeiro semestre de 2019, será a vez de outro musical, Flames, esse de autoria de Stephen Dolginoff, que também escreveu O Pacto, em cartaz na cidade. Finalmente, nos últimos meses do próximo ano, o quarteto planeja levar para o palco a intrigante peça Sleuth, de Anthony Shaffer, que ganhou duas versões para o cinema, a mais intrigante estrelada por Michael Caine e Laurence Olivier como Jogo Mortal.

“Esse início de trabalho revela nosso desejo de falar sobre assuntos pertinentes, como crise da idade, verdades que são duvidosas e a disputa de dois homens por uma mulher”, observa Bel Gomes, que viajou a Nova York nos últimos meses em busca de títulos instigantes. Foi em uma dessas idas que ela recebeu a oferta de Tick, Tick. “Eu estava na MTI (empresa de licenciamento de direitos autorais) buscando um espetáculo quando, depois de pedir vários títulos, eles me falaram: ‘Mas por que você não fica com o Tick, Tick?’ Para os americanos, era uma montagem óbvia para quem havia encenado Rent.”

De fato, depois do sucesso esmagador de Rent, a obra de Larson despertou atenção, como esse musical que foi escrito antes. O título Tick, Tick... Boom! faz referência ao som emitido pelo relógio, que marca o indestrutível passar do tempo. Perto de completar 30 anos, Jon é uma eterna promessa do teatro musical americano e, às vésperas de estrear seu primeiro espetáculo (Superbia), ele enfrenta a pressão da namorada, Susan, que prefere se mudar de Nova York para um lugar mais sossegado, e do amigo Michael, disposto a convencê-lo a trocar tudo pela lucrativa carreira da publicidade.

“A peça retrata justamente o momento vivido por Larson enquanto escrevia Rent, nos anos 1990”, comenta Narchi. “E traz um importante questionamento da vida: por que seguir líderes que não sabem liderar?”, completa Thiago Machado. Os dois são responsáveis pela versão de todos os espetáculos e sabem que o assunto interessa o público jovem. “Enquanto Rent explora uma doença moderna que é a solidão, Tick Tick fala de outro mal que aflige a juventude: a insegurança”, diz Narchi.

Eles estão no caminho certo, acredita Leopoldo Pacheco. “Formamos um grupo qualificado para apresentar projetos que interessam a jovens de 18 a 30 anos, muitos hoje sem interesse pelo teatro”, observa ele, do alto de seus mais de 30 anos de carreira. Pacheco vai protagonizar Sleuth ao lado de Machado, na história de dois homens disputando a mesma mulher, em que os diálogos afiados acirram o confronto dos personagens. Ao final, já não se importam tanto com a amada, mais interessados em vencer o confronto.

Os projetos começam a ganhar contorno. Para Tick, Tick, já estão no projeto a atriz Myra Ruiz e o diretor musical Jorge de Godoy. “Muitos artistas sabem que conquistamos um público jovem que não se via retratado”, comenta Bel Gomes. “Oferecemos representatividade.”

‘Flames’ traz o valor da verdade

Musical de suspense de Stephen Dolginoff se passa em um cemitério onde os personagens têm versões questionáveis

Quando visitou o americano Stephen Dolginoff para acertar detalhes da montagem brasileira de Flames, a produtora Bel Gomes fez um pedido que fez o dramaturgo sorrir: ela queria fotografá-lo diante de sua famosa geladeira, carregada de adesivos com ímã, todos representando espetáculos vistos por ele. “Já se tornou um marco”, comenta Bel.

Flames fala de uma moça inconformada com a morte do amado em um incêndio, um ano antes, e que é consolada (e cortejada) pelo melhor amigo dele. Só que surge um homem dizendo ser o jovem morto.

Dolginoff é adepto de estabelecer conflitos emocionais de uma forma que torna a transição das palavras para a música inteiramente natural. Suas canções são geralmente propulsivas, mostrando as palavras acima de tudo, e, em vez de sobrecarregá-las, traz bancos de repouso para cristalizar um ponto e enfatizar uma nuance emocional.

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