Leekyung Kim
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Quando a convivência transforma a admiração e afeição em ódio visceral

Baseada na obra de Stephen King, ‘Misery’ é transposta para o palco com Mel Lisboa e Marcello Airoldi como protagonistas

Dirceu Alves Jr., Especial para o Estadão

04 de fevereiro de 2022 | 20h00

Em 1991, a atriz americana Kathy Bates recebeu o Oscar de melhor do ano por Louca Obsessão, versão do romance Misery, de Stephen King, filmada pelo cineasta Rob Reiner. Olhos arregalados, roupas escuras, voz trêmula, tudo somava para que a inegável grande interpretação da artista transitasse entre a neurose e o instituto psicótico nas cenas divididas com o ator James Caan. 

Diante do convite para levar aos palcos uma releitura da história, adaptada por Claudia Souto e Wendell Bendelack com base no roteiro de William Goldman, o diretor Eric Lenate quebrou a cabeça para fugir da cilada do preconceito. Como se desviar das intenções de um filme marcante e encontrar nuances em personagens que, inevitavelmente, habitam o imaginário do público, afinal, referências não faltam. Além do longa-metragem, a trama originou duas outras montagens brasileiras. A primeira, em 1994, foi estrelada por Débora Duarte e Edwin Luisi, e outra, em 2005, teve Marisa Orth e Luís Gustavo como dupla principal. 

Misery estreou na sexta-feira, dia 4, no Teatro Porto Seguro, em São Paulo, com a promessa de desvendar diferentes traços comportamentais na enfermeira Annie Wilkes (interpretada por Mel Lisboa) e no escritor Paul Sheldon (papel de Marcello Airoldi). O encenador pretende sublinhar, entre outras coisas, a determinação de uma mulher pacata que tem seu cotidiano transformado pela entrada de um sujeito narcisista e pouco disposto a compreendê-la, inclusive como agradecimento por ela ter salvado sua vida.

Depois de sofrer um acidente de carro na estrada, Sheldon, autor de uma série de romances protagonizados pela personagem Misery, recebe o socorro de Annie, que começa a tratar de sua recuperação em sua própria casa. A mulher se apresenta como a maior fã de seus livros e estabelece uma relação que extrapola os cuidados com o paciente para opinar e até interferir na sua criação literária. O elenco fica completo com o ator Alexandre Galindo, o policial responsável por investigar o desaparecimento de Sheldon.

A primeira diferença percebida pelo diretor é que muita coisa mudou entre os mundos masculino e feminino em três décadas. Para ele, um machismo imperante na Hollywood de 1990 pode ter endossado a visão de Annie como uma louca, deslumbrada com aquele homem que virava sua responsabilidade e disposta a tudo para não perdê-lo. “É um filme mediano que só não passou em branco por causa do trabalho extraordinário da Kathy Bates, mas, imagino, que ela fosse a única mulher em uma equipe totalmente masculina, dominada por ideias estereotipadas.”

Para levar Misery aos palcos, Lenate conta com um time heterogêneo, tendo Mariana Leme como assistente de direção, além de, pelo menos, outras dez mulheres nas linhas de criação e produção – o que serve de radar e amplia a benéfica troca. “A Annie é uma pessoa normal, que vive em um mundo hostil, dominado por homens mesquinhos e que sempre precisou se defender e enfrentar as dificuldades da vida, só isso”, explica. “Então, o foco da nossa montagem é o desvio estabelecido depois do contato dela com o mundo narcisista de Paul Sheldon.”

A escalação de Mel Lisboa é fundamental na desconstrução de Annie como a vilã psicótica. A personagem aparece em cena mais solar, despachada e, na primeira parte, até bem-humorada em suas tiradas características de quem mora no interior. No cenário e nos figurinos, há uma predominância do amarelo e de tons claros para aliviar a atmosfera sombria. “Eu busco um corpo duro, um jeito forte de falar, uma aceleração, porque não posso esquecer de que essa mulher sempre precisou fazer tudo sozinha, mas, ao mesmo tempo, por que ela não pode ser atraente, carregar uma certa sensualidade?”, questiona Mel. “Buscamos estabelecer uma empatia com a plateia para que seja possível entender as motivações tanto dela quanto as do Paul Sheldon.”

A atriz, que vem de investidas desafiadoras nos palcos, como a ambígua Grace de Dogville e a Hedda Gabler de caráter duvidoso criada por Henrik Ibsen, acredita que o espectador será estimulado a destrinchar os interesses desrespeitosos do escritor que, mesmo acamado, deixa a mulher acuada. “É interessante trazer à tona a vaidade exacerbada dele para que possamos duvidar de seu caráter. É um homem que despreza a relação de fã, mas se sente orgulhoso cada vez que aquela mulher enaltece o seu ego”, completa Mel.

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