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Produtor Claudio Botelho relembra a força dramática de Nicette Bruno

Atriz cantava de verdade e juntava à sua voz deliciosa uma força dramática impressionante, como no musical 'Somos Irmãs', no papel de Dircinha Batista

Claudio Botelho, Especial para o Estado

31 de dezembro de 2020 | 13h47

O ano era 1998, antes ainda do tal “boom” do Teatro Musical no Brasil. Estreou no CCBB do Rio um espetáculo chamado Somos Irmãs, que contava os anos finais da vida de Linda e Dircinha Batista, as irmãs cantoras que reinaram por um longo período na poderosa Rádio Nacional. 

Escrito por Sandra Louzada e dirigido por Ney Matogrosso e Cininha de Paula, o espetáculo que vi na estreia (e mais de vinte vezes depois) é o melhor musical brasileiro montado no País nos últimos 30 anos, levando-se em conta que se tratava de um “musical biográfico”. Somos Irmãs usava canções já conhecidas para amparar a história, estilo conhecido como “Juke-Box Show”, sendo a construção do show (texto, direção, arranjos) inteligente, teatral, adulta. E havia um trunfo maior e definitivo: o quarteto de atrizes. 

Linda e Dircinha apareciam como as grandes Rainhas que foram no auge dos anos 1940/50, jovens representadas genialmente por Claudia Netto (Dircinha) e Claudia Lyra (Linda); e também eram vistas em seu final de vida decadente e melancólico, vividas nesta fase por Suely Franco (Linda) e Nicette Bruno (Dircinha). 

Nunca vou esquecer do impacto que tive ao descobrir que Nicette, que eu tanto vira brilhando em espetáculos dramáticos ou de comédia, ou estrelando novelas na TV, aquela estrela conhecida e reverenciada por todos os brasileiros – cantava. Não é que apenas cantarolasse afinado; ela cantava de verdade, e juntava à sua voz deliciosa uma força dramática impressionante. Como disse, voltei a ver Somos Irmãs muitas e muitas vezes, tanto no Rio quanto em São Paulo, onde Beth Goulart entrou no papel da Linda-Jovem e arrasava. 

Perdoem-me as outras colegas, mas eu ia ao teatro ver Nicette Bruno cantar. Vê-la dar vida a uma Dircinha débil, infantilizada, assustada, assistir a maneira emocionante com que a atriz passava das falas para as canções, a verdade sem artifícios no texto e na música, afinal, que diferença há? 

Os anos passaram, a vida e o teatro, tão generosos, me aproximaram de Nicette em dois espetáculos de enorme sucesso: O Que Aconteceu a Baby Jane (protagonista ao lado de Eva Wilma), e seu último trabalho sobre um palco, o musical Pippin, onde Nicette era diariamente aplaudida de pé em cena aberta ao final de uma longa canção hilariante e jocosa, A Vida é Pra Viver (No Time At All), um ‘tour de force’ para uma grande atriz. 

Nicette Bruno foi uma Rainha. Não contar mais com Nicette é um déficit grave para nós que produzimos e dirigimos, e especialmente para o público. Ter podido trazê-la de volta a um musical, logo eu (junto de Charles Moeller, sempre), 22 anos após aquela estreia de Somos Irmãs, não é apenas uma honra: é a vida fazendo sentido. Nicette foi encontrar o Paulo Goulart, e foi cantando A Vida é Pra Viver, como uma estrela dos musicais. 

Temos um exército de atores e atrizes veteranos em Teatro e TV que, embora o grande público nem desconfie, cantam e cantam bem. Estou falando de Fernanda Montenegro, Betty Faria, Eva Wilma, Ana Lúcia Torre, Marieta Severo, Elizabeth Savalla, Walderez de Barros, Irene Ravache, Patrícia Bueno, Vera Fajardo, Laura Cardoso, Ivone Hoffman, Carmen Verônica, Suzana Fainy, Rosy Campos, Marilu Bueno, Sônia Clara... e não citei os homens.

A falta que Nicette faz e fará, a saudade, a vontade de ligar pra ela e chamar pra “mais uma loucura, vamos?” – fica na lembrança, eu não esqueço. Nunca esqueci Somos Irmãs. Não desisti, nunca vou desistir de ter Mestres no palco. Vamos buscá-los!

É PRODUTOR, DIRETOR E VERSADOR

 

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