André Guerreiro Lopes
André Guerreiro Lopes

Produções on-line refletem sobre a cidade e as novas gerações

Os diretores André Guerreiro Lopes e Djin Sganzerla apresentam os poemas cine-teatrais 'Vênus' e 'L.O.R.C.A.' em exibições gratuitas, de quintas a domingos, até 12 de dezembro

Dirceu Alves Jr., Especial para o Estadão

08 de dezembro de 2021 | 15h00

O Estúdio Lusco-Fusco, fundado em 2007 pelos atores, diretores e produtores André Guerreiro Lopes e Djin Sganzerla, atravessou os últimos dois anos entre inquietações artísticas e expectativas pessoais. A mais transformadora delas foi o nascimento de Luna, primeira filha de Lopes e Djin, em 14 de julho de 2020. A chegada de um bebê durante o turbulento período pandêmico levou o casal a transformar em arte as preocupações com o mundo exterior e a responsabilidade de superar adversidades por conta de uma nova vida.

Duas produções inéditas - ou poemas cine-teatrais, como a dupla prefere definir - está disponível, em exibições gratuitas, de quintas a domingos, no YouTube do Estúdio Lusco-Fusco, até 12 de dezembro. Vênus, às 19h, é um misto de documentário e ficção em torno das reflexões de um bebê, ainda na barriga da mãe, sobre o passado dos pais e a espera de nascer em um cenário caótico. Protagonizado pela atriz Helena Ignez, mãe de Djin, L.O.R.C.A. entra no ar na sequência, às 20h, com inspiração nos poemas do espanhol Federico Garcia Lorca (1898-1936), para mostrar uma metrópole devastada pela crise em busca de uma mínima beleza nos destroços. 

“Será que ainda haverá um sol lá fora quando eu sair da barriga da minha mãe ou viverei para sempre na escuridão”, pergunta-se o bebê de Vênus, visto em imagens de ultrassonografia, através da narração de Djin. Baseados em uma dramaturgia de Dione Carlos, Lopes e Djin partem de fragmentos da trajetória pessoal deles trazidos à tona sob o ponto de vista do nenê. “Pensei em outras gestações dessa pandemia e como os bebês refletiriam sobre uma história passada que não viveram, mas de grande importância para entender esse mundo complexo e a relação dos pais”, explica Djin, codiretora do filme.   



Ao longo dos anos, Lopes registrou com sua câmera portátil viagens do casal, como para a China e Índia ou mesmo para o campo, no interior de São Paulo, e, agora, os dois acharam que era hora de explorar as gravações. “Com a chegada de Luna, esse material guardado foi ressignificado e, mesmo a Vênus sendo uma personagem de ficção, a nossa filha é protagonista o tempo todo porque ela veio em um momento especial da humanidade, carregado de beleza, mas cheio de dor por conta da tragédia”, aponta Djin.  

L.O.R.C.A., por sua vez, nasceu de um projeto presencial que, constantemente adiado, virou filme. Lopes é apaixonado pelas peças do autor de A Casa de Bernarda Alba e Bodas de Sangue, mas lamenta que sua obra poética seja tão pouco revisitada. Para estruturar a dramaturgia, o diretor se lembrou que Lorca comandou uma companhia teatral itinerante, a La Barraca, que corria a Espanha em um caminhão. “Enquanto Vênus parte de uma realidade privada, L.O.R.C.A. faz o caminho oposto e joga poesia ao vento pela cidade de São Paulo”, define.

Está pronto o mote para transformar Helena Ignez em uma andarilha que circula pela metrópole com uma caixa, convidando os transeuntes a colocar o olho em uma lente e descobrir imagens lá dentro. As cenas foram filmadas na Vila Brasilândia, na Praça da Sé, no Pátio do Colégio, na Marginal Pinheiros e na Avenida Paulista - durante a manifestação bolsonarista de 7 de setembro. O diretor deixou Helena livre para as interações com quem se aproximava. “No Centro, eu perguntei se podia filmar um rapaz indígena, e ele se ofereceu para tocar um chocalho. O mesmo aconteceu com uma moradora de rua, na verdade uma artista, que contracenou com Helena”, conta. “Ser fiel ao Lorca tem a ver com deixar explodir essa força das ruas já que ele foi tão castigado por lutar pela liberdade.”  

Vênus e L.O.R.C.A. dão continuidade ao repertório do Estúdio Lusco-Fusco. Entre os seus espetáculos estão Ilhada em Mim - Sylvia Plath, Tchekhov é um Cogumelo e Insônia - Titus Macbeth, que ganhou versão on-line no ano passado. Pouco antes de engravidar, Djin também finalizou seu longa de estreia como cineasta, Mulher Oceano. A obra recebeu prêmios em festivais e fartos elogios que descolam a realizadora da figura dos pais, Helena e o cineasta Rogério Sganzerla (1946-2004). “Eu precisei encontrar uma linguagem própria desde cedo e, como sempre tivemos uma relação muito forte, isso me deixou segura para encontrar a minha própria voz”, completa a atriz e cineasta.    

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