DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO
DANIEL TEIXEIRA/ESTADAO

'Primo Basílio' e bovarismo inspiram montagem sem falas

Em 'Casa Apodrecida', Luísa, da obra de Eça de Queiró é a face de mulheres insatisfeitas que criam um universo particular

Leandro Nunes, O Estado de S. Paulo

19 de novembro de 2016 | 03h00

Não é preciso usar a voz para explicar como foram as quatro semanas de paixão entre Luísa, a esposa de Jorge, e seu antigo namorado, o primo Basílio. Esta foi uma das percepções do elenco de Casa Apodrecida, espetáculo que estreia nesse sábado, 19. Inspirado na obra de Eça de Queirós, a montagem criada não possui falas, explica o diretor Leonardo Bertholini. “Diante de um roteiro de ações, percebemos que a história poderia ser contada de maneira sensorial, com foco no corpo dos atores.”

A peça retrata a vida entediante de uma mulher rica de Lisboa que, durante a viagem do marido Jorge (Marco Biglia), passa a se encontrar com Basílio. As cenas de amor no quarto alugado chamado de Paraíso são protagonizadas pela atriz Nathália Côrrea e Vandré Silveira. “Nós nos apoiamos em uma gênese dessas personagens. Ambos têm características e históricos particulares. De posse desse imaginário, levamos para o palco as cenas mais importantes da história, substituindo a palavra falada pelo diálogo dos corpos”, explica a atriz.

O relacionamento às escondidas vai sofrer com ameaças da empregada Juliana (Bianca Fernandes), que descobre cartas trocadas entre os amantes. O cenário organiza-se para amplificar essa atmosfera de vigilância e de um relacionamento com destino trágico acertado. As cortinas transparentes no fundo do palco cumprem a função de esconder e revelar segredos. “É como se fosse o quartinho da empregada”, explica o diretor. “Lá, ficam guardados os entulhos e é inevitável que isso vá invadir a casa grande”, ressalta o diretor.

Bertholini também afirma que as características de Luísa encontram identificação na Madame Bovary, de Gustave Flaubert, considerado o primeiro romance realista, e até de Blanche DuBois, de Um Bonde Chamado Desejo. “São mulheres que precisaram criar o próprio mundo para viver e sobreviver. Isso faz com que elas sofram pressão do mundo exterior, porque não sabem lidar com a realidade.” Ele acrescenta que essa liberdade vai além dos rótulos, como nas insinuações de Leopoldina (Camila Bonnenfant), amiga de Luísa. “São demonstrações do que era negado às mulheres.”

Para Nathália, o que pode unir essas figuras é a maneira como encontraram seu refúgio. “No caso de Luísa, o adultério foi o caminho para a redescoberta do próprio corpo. Não se trata do feminismo como compreendemos, pois não havia consciência disso. Ao fugir dessa realidade machista, as personagens encontram o paraíso em si mesmas. Mas ainda hoje as mulheres precisam lembrar a posse do próprio corpo.”

CASA APODRECIDA.

Oficina Cultural Oswald de Andrade. Rua Três Rios, 363. Tel.: 3222-2662. Sáb., 19h, 2ª, 3ª, 20h. Grátis. Estreia 19/11.

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