MARCIO FERNANDES/ESTADAO
MARCIO FERNANDES/ESTADAO

Primeira série brasileira em áudio binaural vai levar público para bibliotecas

ExCompanhia de Teatro cria ficção em torno do misterioso manuscrito Voynich

Leandro Nunes, O Estado de S. Paulo

31 Janeiro 2017 | 05h00

Esqueça Pokémon Go. Para muita gente, aplicativo que leva o usuário a capturar monstrinhos pelas ruas, lançado em julho desse ano com grande apelo mundial, não rendeu mais que baterias descarregadas, assaltos e alguma caminhada pelo bairro. Mas pode-se dizer que foi um dos primeiros jogos que buscou aliar a dinâmica virtual na rotina urbana. 

Esse tipo de experiência vem sendo perseguida pela ExCompanhia de Teatro. Sem a ambição de criar jogos como o do Pikachu, o desejo mesmo é de descobrir poesia escondida entre chips e asfalto. Nessa terça, 31, o grupo lança O Enigma Voynich, a primeira série brasileira em áudio binaural, no Centro Cultural São Paulo.

Nela o áudioespectador vai ouvir uma trama sobre o manuscrito misterioso com um som que recria a sensação de tridimensionalidade do espaço. É como se as cenas estivessem acontecendo no instante em que são ouvidas. 

Apesar do nome da técnica, os fundadores da companhia explicam que a tecnologia não é lá coisa de outro mundo para entender. Grande parte dos games modernos distribuem os sons para cada fone a fim de ampliar a percepção dos cenários e suas interações. “É uma maneira de aproximar o espectador de uma obra, tornando a participação uma coisa só”, explica o ator Gustavo Vaz.

Como os sons vão ser direcionados para cada ouvido, o processo de gravação envolve dois microfones, curiosamente posicionados em cada orelha. “Isso influencia na recepção sonora por parte de cada lado da cabeça e determinado pela organização do ambiente”, acrescenta o diretor Bernardo Galegale.

Antes de continuar, uma pausa: nesse link tem o exemplo de uma cena. Para acessá-la, basta utilizar a câmera do celular e um aplicativo de leitura que escaneia o quadrado que funciona como um código de barras. Ao dar o play, o aplicativo exibe um rascunho do que virá, em uma ilustração chamada de grafite digital, desenvolvida pelo arista visual Achiles Luciano. “É importante que a pessoa copie a posição em que está o personagem, porque ela foi gravada assim.

Nesse caso é com um dos joelhos no chão”, explica Galegale. Em seguida, com o uso de fones de ouvido e com os olhos fechados, o áudioespectador se tornará o historiador José. Nessa cena, um cachorro late feroz para o homem que não reage. “Você percebe a respiração dele, como se fosse a sua”, diz Vaz. 

Além de tantos aparatos, a história é essencial. No papel do historiador, o áudioespectador vai investigar o famoso manuscrito Voynich, um livro de autoria desconhecida que traz um sistema de escrita não identificado e incompreensível.

A obsessão de José pela obra se mistura aos frequentes “apagões” que o fazem esquecer de como chegou nos lugares. E são muitos lugares. Ao longo de 62 cenas e com outros 6 personagens, José participa de festas, viagens, faz sexo, se casa, atira em alguém, toma banho e faz um exame de ressonância magnética. As duas últimas cenas, as mais difíceis de serem criadas, segundo Vaz. “O problema do banho era de molhar os equipamentos. E eu tomei banho mesmo. Depois tentamos bater com os dedos na cabeça, para simular o barulho das gotas. No caso do exame, o procedimento já é complexo e cheio de barulhos diferentes.” 

Para a dupla, o projeto é fruto dos trabalhos da companhia que desde 2012 busca integrar diversas mídias na criação de obras sem tantas amarras formais. “Muitas pessoas ficam surpresas porque somos um grupo de teatro, o que não significa que não podemos dialogar com o cinema, com a performance e com as redes sociais”, ressalta Vaz. 

Com essas características, O Enigma Voynich teria tudo para ser apreciado no conforto do sofá. No entanto, a continuação da história depende da visita a três lugares da cidade. Após alguns episódios, José precisa ir até as bibliotecas Mário de Andrade, na Consolação, Viriato Corrêa, na Vila Mariana, e Sérgio Millet, no Centro Cultural São Paulo. Lá o aplicativo desbloqueia automaticamente o restante dos episódios. “A investigação do personagem também acontece nas dependências desses locais”, conta Galegale. “É uma forma de promover uma experiência artística, que esteja ligada à cidade e que se realize em contato direto com ela.”

O ENIGMA VOYNICH. Centro Cultural São Paulo. Rua Vergueiro, 1000. 19h. Tel.: 3397-4002. Grátis. Disponível para download no Android e iOS.

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