Sergio Neves/Estadão
Sergio Neves/Estadão

Presidente afastado do Municipal do Rio diz que Milton Gonçalves assume cargo por indicação política

Decisão de nomear o ator causou estranheza no meio erudito

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2017 | 18h51

RIO - A nomeação do ator Milton Gonçalves para a presidência da Fundação Teatro Municipal do Rio, em substituição ao compositor e regente João Guilherme Ripper, foi confirmada nesta quarta-feira, 22, pelo secretário estadual de Cultura, André Lazaroni. Ripper, cuja gestão, de 19 meses, vinha muito elogiada por artistas e produtores, afirmou que o secretário, que é deputado estadual licenciado, lhe disse ter precisado do cargo para "atender a demandas políticas".

Tomada com o objetivo de "popularizar" o equipamento cultural mais importante do Estado, a decisão causou estranheza no meio erudito porque Milton, que tem 83 anos, mais de 50 dedicados ao cinema, TV e teatro, não tem experiência como administrador, tampouco ligação com o universo da música clássica, balé e ópera. 

Ele é filiado ao PMDB - partido de Lazaroni, que até semanas atrás era líder da legenda na Assembleia Legislativa do Rio, e também do governador Luiz Fernando Pezão. Em 1994, Milton chegou a ser candidato a governador do Rio. Procurado durante todo o dia, o ator não deu entrevista ao Estado. 

Lazaroni anunciou que o novo presidente irá investir em música popular e em apresentações dos corpos artísticos do teatro no interior e em áreas pobres, com vistas à renovação do público. Ele também é um estranho no ninho - advogado e deputado com foco nas áreas esportiva e ambiental - e não se constrange ao dizer que sua nomeação para a pasta se deveu à sua filiação partidária, o que não foi, garante, o caso de Milton. 

"Foi uma escolha técnica. É um cargo de confiança e Milton terá carta branca. Ele vai fazer um belo trabalho, é um bastião da cultura brasileira e será o primeiro presidente negro do teatro", elogiou o secretário. 

Ripper também falou ao Estado:

Como você foi informado de sua exoneração?

Fui convidado pelo secretário para uma reunião, ontem, no final da tarde, quando ele me disse que necessitava do cargo de presidente da Fundação TMRJ para atender a demandas políticas.

No Facebook, vocês escreveu: "Faço votos de que nosso querido Teatro Municipal resista a esses ventos populistas e possa continuar no trilho de sua verdadeira vocação." A que se referia?

Estou respondendo de forma poética à justificativa do secretário de que o novo presidente será nomeado para "popularizar" o teatro. Se "popularizar" o Municipal significa aumentar o público, temos a mostrar o crescimento do número de frequentadores, a programação da série "Domingo no Municipal" com entradas a R$ 10 e o "Municipal de Portas Abertas", o novo site, a presença nas redes sociais, a reativação das assinaturas após 15 anos, além da promoção de ensaios abertos, cursos sobre ópera e balé abertos à comunidade, visitas guiadas e uma política de preços acessíveis para a toda a programação da temporada oficial. 

O que seria "popularizar" o teatro, a seu ver?

Caso "popularizar" se refira a uma mudança conceitual da missão do teatro, lembro que ali trabalham mais de 300 artistas, entre bailarinos, cantores e instrumentistas, que dedicaram muitos anos de sua vida à uma formação clássica (não há porque ter medo do termo…). O palco, plateia e demais dependências do teatro foram planejados e construídos em 1909 para abrigar um certo tipo de espetáculo. Assim, a vocação do Teatro Municipal é a produção e apresentação de concertos, óperas e balés, trazendo ao público o imenso repertório desses gêneros, contribuindo para sua renovação através de encomendas a criadores contemporâneos e realização de novas montagens. É um orgulho termos o Teatro Municipal no Estado e temos que trabalhar para que mais pessoas tenham acesso a esse patrimônio.

O que achou da indicação do ator Milton Gonçalves para seu lugar?

Milton Gonçalves é um grande artista. Desejo sucesso em sua gestão.

Que marca acredita ter deixado em seu período na presidência?

Fui convidado por Eva Doris (ex-secretária) a assumir a presidência da fundação em junho de 2015, por causa de meu perfil de músico e gestor, após uma trajetória bem sucedida de 11 anos à frente da Sala Cecília Meireles. Nos 18 meses de nossa gestão, produzimos doze títulos de ópera (a média anual dos últimos 25 anos é de 3 a 4), seis balés e diversos concertos; criamos a Academia de Ópera Bidu Sayão; reformulamos a Escola de Dança Maria Olenewa e o Centro de Documentação, além de realizar os projetos sócio-educativos e de formação plateia. Deixo o Teatro Municipal estruturado e pronto para a temporada 2017.

Em meio à crise grave financeira que o Rio enfrenta, quais são os desafios do teatro pra 2017?

O principal desafio é a realização da temporada artística 2017, que tem as óperas "Jenufa", realizada em co-produção com a Companhia de Ópera Livre, "Un balo in Maschera" (de Verdi), "Lohengrin" (de Wagner), "Werther" (de Massenet) e "L'Italiana in Algeri" (de Rossini); os balés "O corsário", "Gisele" e "Quebra-Nozes"; os concertos com coro e orquestra em homenagem aos 250 anos do Padre José Maurício e aos 130 anos de Heitor Villa-Lobos. Cabe à nova gestão cumprir ou alterar a programação proposta.

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