Junae Andreazza
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'Porta Entreaberta' surge como testamento artístico de Edson Montenegro

Ator morto pela covid-19 está na peça, exibida em formato digital

Dirceu Alves Jr., Especial para o Estadão

21 de abril de 2021 | 05h00

Foi no dia 11 de março que a diretora Débora Dubois e o ator Edson Montenegro (1957-2021) conversaram pela última vez. Perfeccionista, ela não ficara satisfeita com a filmagem de Porta Entreaberta, realizada em 20 de fevereiro, estreia dos dois no formato digital, que pode ser vista na plataforma Sympla. “Eu passo na sua casa no fim da tarde, gravo algumas cenas com o meu celular e a edição resolve tudo”, avisou Débora. Montenegro, felicíssimo, tinha adorado o resultado e considerado aquela a experiência mais moderna de sua carreira, porém, não rebateu a colega. “Venha que estarei a sua espera”, respondeu ele, que, três horas mais tarde, cancelou o compromisso porque não passava bem e sentia dores de estômago.

Edson Montenegro, cantor e ator carioca de 63 anos, radicado em São Paulo desde 1979, baixou no hospital dois dias depois e inscreveu seu nome entre os de tantas vítimas da covid-19, na madrugada de 21 de março. Seu último trabalho no palco foi Donna Summer Musical, dirigido por Miguel Falabella, que teve a temporada suspensa por causa da pandemia duas semanas depois do lançamento. Porta Entreaberta surge como um testamento artístico. “Tudo ganhou uma nova leitura, nada poderia ser mexido ou editado no nosso material, o Edson tinha toda a razão”, reconhece Débora, em relação à peça que tem sessões gratuitas entre os dias 22 e 24, às 19h30. 

Escrito pela dramaturga amazonense Pricilla Conserva, o texto mostra um homem maduro que, como válvula de escape ao isolamento, expõe suas memórias afetivas diante de uma câmera. Essas lembranças são costuradas por composições de Gonzaguinha (1945-1991), a inspiração do projeto transformada em oportunidade para eternizar o vozeirão de Montenegro. As canções O Que É o Que É?, Explode Coração, Grito de Alerta, Espere por mim, Morena e Pois É, Seu Zé, arranjadas pelo diretor musical André Bedurê, servem de costura para uma reflexão sobre os muitos erros e raros acertos íntimos. “Imaginei que seria difícil encontrar a fala de um homem de meia-idade, tudo tão distante de mim, mas percebi no Edson uma imensa vontade de trocar e entendemos juntos as motivações do personagem”, afirma Pricilla, que mora em Manaus e conheceu Débora em um festival de teatro. 

Se tinha uma coisa de que Montenegro gostava era de conversar e, na pandemia, cada ligação para Débora durava pelo menos duas horas. “Estou ficando velho e são poucos os papéis para negros, preciso de um espetáculo meu, daqueles que eu posso colocar em cartaz sempre que quiser e precisar”, comentou ele, na metade do ano passado. À medida que o processo de Porta Entreaberta avançava, a diretora, encantada com as possibilidades, imaginava guardá-lo para fazer ao vivo, assim que a pandemia permitisse. Montenegro parecia ansioso, tinha pressa, reafirmava que gostaria de fazer agora, do jeito que fosse possível. 

Débora e Montenegro eram amigos desde 2001. Os dois se conheceram durante a seleção para o elenco da peça Pedro Mico, de Antonio Callado. O artista não ganhou o papel e, inconformado, pediu explicações para a diretora. “Eu precisava de um tipo ágil, com uma maior desenvoltura corporal e enxergava no Edson muito mais um cantor que um ator. Sugeri que procurasse uma escola de teatro, qualquer uma”, recorda. Montenegro abraçou a humildade e, com quase 50 anos, buscou a tradicional Escola de Arte Dramática (EAD). 

A intimidade permite a Débora declarar que Edson Montenegro enfrentou bem o isolamento social e foi muito cuidadoso com a covid-19. “Era do tipo medroso, sabe aquele homem que corta o dedo e se apavora?”, entrega. 

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