João Caldas
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'Ponto Morto', peça de Hélio Sussekind, põe homens em limbo emocional

No palco, Luciano Chirolli e Marat Descartes expõem fraturas sinceras produzidas por anos de ausência

Leandro Nunes, O Estado de S. Paulo

11 Março 2017 | 16h04

Existe uma condição característica do ambiente que se impõe a corpos de portadores de necessidades especiais. Trata-se de uma arquitetura que por vezes não demonstra afeto nem convida tais pessoas para a vida urbana. Um homem autista que caminha por uma cidade sem acesso e cheia de violência pisa diferente na escuridão de uma floresta. É para lá que Luciano Chirolli e Marat Descartes se recolhem em Ponto Morto, texto de Helio Sussekind em cartaz no Tucarena. 

Foi durante um ensaio antes da estreia que a dupla demonstrou a obscura trilha construída na relação entre os homens, um deles autista, que caminham sem rumo dentro de uma floresta de troncos cortados. Segundo Denise Weinberg, uma estrada conquistada sem atalhos e que arrasta inquietações para além do palco. “Unimos em uma peça o que mais gostamos de explorar: o trabalho do ator, conta a diretora que compartilha a função com Camilo Bevilacqua, idealizador do projeto. “Além de nos forçar a revisar o que compreendemos como relações afetivas.”

Por se tratar de uma encenação soturna, é preciso estar atento às pistas que surgem nas palavras e na interação entre os dois homens. O mais velho (Chirolli) declara seu cansaço por estar preso ao autista, que o enche de perguntas e exige explicações sobre o porquê das coisas. Os dois caminham por uma floresta em direção à cidade, e o motivo é revelado sem pressa. 

Apesar de não ser uma peça sobre autismo, Descartes afirma que foi importante estudar e compreender os aspectos gerais do distúrbio para que servisse na concepção de um personagem que comunicasse além do próprio tema. “Descobrimos que, como as crianças, o hábito que eles têm de perguntar repetidamente as mesmas coisas serve para reforçar a própria segurança, além de que possuem um fluxo mental intenso”, diz. “Mas não queríamos uma figura infantilizada.”

Para Chirolli, a montagem ganha um aspecto universal que se encaixa, de alguma forma, na experiência social de muitas pessoas. “Há sempre um exemplo vivido ou conhecido de uma relação de codependência, principalmente emocional, seja no amor ou na família, no qual você só quer que tudo acabe mas está preso e não consegue cair fora”, conta também.

Quando a dupla chega à cidade, o estranho conto de fadas parece acabar, os homens encaram do lado de fora uma sociedade preconceituosa, violenta e intolerante. “Não existe apenas uma pressão interna e uma inquietação particular nessas relações disfuncionais, mas o que está do lado de fora, expondo o que é considerado anormal e estranho”, afirma Denise. 

Diante do drama, o rapaz vive o pesadelo de não saber manejar a própria identidade. Ao tentar interferir, o velho só confirma a tese de que ele próprio sobrevive como um prisioneiro. “Aos poucos, eles vão recorrer à memória e abrir suas feridas e a razão de tanto rancor acumulado por anos”, conta Chirolli. “O que queremos é conseguir uma solução poética para isso.”

PONTO MORTO. Teatro Tucarena. Rua Monte Alegre, 1.024 . Tel.: 3670-8455. 6ª, sáb., 21h, dom., 18h. R$ 70 / R$ 80. Até 2/4.

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