Poesia visual domina ‘Noites de Mário de Andrade'

Pascoal da Conceição persegue as pegadas do escritor em projeto incubado no Instituto Capobianco

Leandro Nunes, O Estado de S. Paulo

10 de dezembro de 2015 | 05h00

“Hoje, vi sua foto no jornal!”, disse um senhor para o ator Pascoal da Conceição. O homem não se referia à edição desta quinta-feira. A imagem citada apareceu há muito tempo e trazia uma antiga nota de 500 mil cruzados com o rosto do escritor Mário de Andrade (1893-1945). “Na hora, ri da brincadeira. Mais tarde, fiquei pensando que a semelhança era real”, conta.

Desde então, o ator que, curiosamente comemora seu aniversário no mesmo dia (9 de outubro) do escritor, tem colocado a figura do poeta como régua para seus ideais de desenvolvimento da educação e da cultura brasileiras. “Ele pensou o Brasil como ninguém! É uma boa sorte poder interpretá-lo porque, quando um personagem bate assim, não dá para largar”, explica. “Por vezes, acho que sou mais Mário do que o próprio”, acrescenta. 

Nesta quinta, 10, o ator participa de Noites de Mário de Andrade, no Instituto Capobianco. A direção é do também ator Fredy Állan, parceiro de trabalhos como o programa infantil Castelo Rá-Tim-Bum, quando viveu o pequeno Zequinha, e o espetáculo O Duelo, com a Mundana Companhia.

Integrante do Núcleo Independente Tecnorupestre (NIT), o ator então se encontrou com Conceição para conceber o projeto #mariodeandradenoteatro, com estreia prevista para o segundo semestre de 2016, ano em que a obra do autor entra em domínio público. 

Antes que isso aconteça, o grupo se debruçou sobre os escritos do artista e suas viagens inspiraram a criação de duas cenas. A primeira, denominada Músicas de Feitiçaria, parte de um ajuntamento das canções colhidas por Mário durante sua passagem pelo Norte e Nordeste. “Durante esse mergulho na cultura nordestina, ele visitou terreiros de umbanda e candomblé”, conta Állan.

A parada foi em um ritual de fechamento de corpo no Catimbó, misto de xamanismo indígena com ritos africanos tradições católicas. “Vamos montar um grande coro para entoar essas canções cerimoniais. Será um fechamento de corpo para 2016”, explica o diretor. Na condução dessas vozes, estão o músico Celso Sim e a cantora e atriz Mariana de Moraes. 

O segundo encontro, na próxima quinta,17, é chamado de O Grupo dos Cinco e faz um reflexão sobre o tempo. Durante a Semana da Arte Moderna, em 1922, diversos artistas experimentaram novas formas na poesia, pintura, escultura e arquitetura e, entre todos esses, o famoso Grupo dos Cinco se destacou com Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Menotti Del Picchia e Mário. 

A noite homônima promoverá uma reunião de corpo tão presente quanto o personagem de Conceição. Atores de diversas companhias viverão o quinteto. “Durante a semana de 22, eles foram os mais representativos, e, naquele ano, eles discutiram uma arte que pudesse irromper novos tempos.” 

No elenco, estarão os atores Gui Calzavara, da Mundana Companhia, Leticia Coura, do Teatro Oficina, Acauã Sol, do NIT, Sofia Botelho, da 28 Patas Furiosas, e o músico Meno Del Picchia, bisneto do escritor Menotti. 

Nos anos seguintes, quando todos os quatro foram para a Europa, só Mário ficou no Brasil, explica Állan. “Vinte anos depois, o escritor para e observa esse momento descrito em sua revisão do Modernismo.” A conexão desses períodos se dará com a leituras de cartas trocadas e trechos de obras. “Será uma grande homenagem, entre os admiradores e os familiares desses artistas”, conta.

Ainda nesta noite, o diretor também faz a leitura dramática de Uma Noite em Cinco Atos, uma adaptação da peça de Alberto Martins que traz Álvares de Azevedo (1831-1852), Mário e José Paulo Paes (1926-1998) em uma ampla interrogação sobre a poesia, a cidade de São Paulo, e a vida moderna.

A leitura inaugura a criação do primeiro espetáculo do núcleo de Állan, criado em 2010. Calcado na utilização de tecnologia no teatro, o núcleo aborda questões em torno do registro de processos artísticos e sua interferência na criação. “Trabalhamos com o uso de recursos audiovisuais com o objetivo de refletir sobre a produção e difusão desse tipo de material.” 

Para 2016, ele manterá residência com o coletivo no Instituto Capobianco e prevê parcerias que criem oportunidades de diálogo entre o cinema e a produção teatral. “Boa parte da reflexão também já está presente nessas noites com Mário.” 

“Há um grande cansaço de explicar o mar”

A casa de Oswald de Andrade e o ateliê de Tarsila do Amaral serviram de local de encontro para o famoso Grupo dos Cinco, que incluía Mário de Andrade, Menotti del Picchia e Anita Malfatti, autora do desenho. A obra retratava a reunião dos artistas em 1922. Além dela, o trecho de Oswald em O Santeiro do Mangue e todo o movimento modernista ganharia revisão de Mário. 

NOITES DE MÁRIO DE ANDRADE. Instituto Capobianco. R. Álvaro de Carvalho, 97, Anhangabaú, 3255-8065. 5ª, 20h. Até 17/12. Grátis.

 

 

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