ALEX SILVA/ESTADAO
ALEX SILVA/ESTADAO

Pia Fraus festeja a audiência do público infantil de mais de 24 países

Aos 34 anos, companhia cujo nome foi dado por Domingos Montagner reflete trajetória com projetos entre arte e educação

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

27 Janeiro 2018 | 06h00

A tradição paulistana de peças dramáticas adultas pode ser motivo de orgulho por ser a mais abundante do gênero no circuito brasileiro, mas não dá conta de assumir uma pequenina realidade: o teatro em São Paulo é da criançada.

Desde o dia 10, a companhia Pia Fraus promove seu festival de férias com espetáculos de quarta a domingo e oficinas de criação de bonecos em sua sede na Vila Romana. Uma conversa com o diretor Beto Andreetta e uma visita ao espaço bastam para compreender que são as artes cênicas voltadas para os pequenos que impulsionam o grupo a circular pelo País e a estar entre as companhias do gênero que mais se apresentam no exterior. A conta da Pia Fraus é de mais de 24 países, além de todos os Estados brasileiros, soma surpreendente para qualquer companhia tradicional de teatro adulto com o mesmo tempo de existência em São Paulo. 

A fundação em 1984 da Pia Fraus – nome dado pelo ator e palhaço Domingos Montagner e que significa ‘uma mentira contada com boas intenções’ – tem raízes na estética e no pensamento do artista Ilo Krugli e seu Teatro Ventoforte, criado em 1974 no Rio, considerado uma revolução no gênero. Outra referência é o grupo mineiro Giramundo, de 1970, que tem um museu onde preserva suas marionetes em Belo Horizonte. Ao lado de Andreetta, Beto Lima, morto em 2005, conduziu a Pia Fraus por diferentes vertentes da manipulação, do mamulengo, do teatro de objetos e de sombras. “Já trabalhávamos em um projeto de educação infantil. As crianças já eram um plateia conhecida para nós”, conta ainda Andreetta.

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Com esse público fiel, no período em que Montagner trabalhou com a dupla, a Pia Fraus se arriscou e colocou seus bonecos para discutir questões mais sérias, como sexo, violência, traição, em empreitadas sobre a obra de Nelson Rodrigues. “Domingos já era um artista pronto.

Tivemos a sorte de conhecê-lo e, em seis meses, já éramos sócios. Quando ele saiu e foi para o grupo La Mínima, prosseguimos produzindo para o público infantil.” Em breve, a sala de espetáculos da Pia Fraus será batizada com o nome do artista morto em 2016. “Infelizmente e por algum motivo que não sabemos, o teatro de bonecos para adultos não tem o mesmo êxito do que o infantil”, conta o diretor, que ainda deseja montar uma versão de Macunaíma.

De volta às crianças, surgiu Bichos do Brasil, carro-chefe da Pia Fraus, que passou por países como Argentina, Espanha, Bélgica, Timor Leste e fez sucesso no grandioso Festival de Edimburgo e que neste ano pode se apresentar em um festival na China, no segundo semestre. Durante a turnê pela Europa, o diretor lembra que precisou quadruplicar o “elenco” de infláveis e marionetes para facilitar o transporte.

“Temos um manancial na cultura popular que nos inspira a criar e que interessa ao mundo. Não se trata de algo meramente folclórico ou exótico, mas de perceber o potencial criativo nessa diversidade brasileira.” Nessas andanças, Andreetta recorda que o teatro de bonecos lhe concedeu quase “passaporte livre” para circular. “Na alfândega, ninguém resistia ao saber que éramos brasileiros e que no caminhão levávamos bonecos. Isso desarma qualquer um.” 

Para alguém que está de olho na formação cultural de crianças entre 2 e 9 anos, o diretor concorda que as discussões sobre classificação etária em espetáculos, nos últimos anos, vieram carregadas de conservadorismo e que é preciso ter calma. “No caso da performance no MAM, havia um contexto e a criança estava acompanhada da mãe. Hoje, existe uma histeria que acaba atrapalhando tudo e impedindo o diálogo”, explica sobre a performance La Bête, na qual Wagner Schwartz se apresentava nu e era tocado pelo público.

Assim, em suas peças, tal qual Le Plat du Jour, Cia. Vagalum Tum Tum, Sobrevento e outros grupos residentes em São Paulo, a Pia Fraus quer discutir, por meio do lúdico, questões reais e urgentes. “Queremos ampliar o horizonte dessas vidinhas, investindo em temas contemporâneos sobre cuidados com o próprio corpo, sexualidade, natureza e consumo”, explica Andreetta, que ainda mantém o projeto Buzum, com versões do repertório apresentado em ônibus estacionados em escolas municipais. 

FESTIVAL DE FÉRIAS. Espaço Pia Fraus. Rua Coriolano, 624, Vila Romana, tel. 3864-3327. Dom., 15h30. 

Grátis. Até 28/2. 

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