Ines Correa
Ines Correa

'Peças Fáceis' verticaliza os estudos sobre memória e gesto

Um som que puxa do corpo um movimento que se torna um movimento de dança? Ou um movimento de dança que aparece no corpo desenhando uma sonoridade? Essa parece ser a fricção que alimenta Peças Fáceis, a nova criação do Grupo Pró-Posição, de Sorocaba, que ficou em cartaz até domingo no Teatro Tusp da Rua Maria Antônia, em São Paulo.

Helena Katz / ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

22 Maio 2017 | 04h00

O acordeom e a voz estão lá desde o começo, nos anos 1970, garantidos por Janice Vieira, uma das pioneiras da dança contemporânea no Brasil.

A partir de 2008, quando Andréia Nhur, sua filha, passou a formar com ela a dupla que deu continuidade ao grupo, o foco na relação som-movimento foi ganhando a centralidade na sua produção, até encontrar no contraponto barroco de Bach um estímulo para a sua estrutura coreográfica. Agora, uma canção existente se dobra sobre si mesma para se tornar um rastro que rasga para deixar sair a nostalgia que conforta e se mostrar como o que uma coleção de informações muito vasta balbucia. 

Peças Fáceis, a nova produção de Janice Vieira e Andreia Nhur (mãe e filha que dão seguimento às atividades do Grupo Pró-Posição, fundado em 1973), é uma “plataforma sonorocoreográfica”, segundo suas criadoras.

Ela reúne, para além deste espetáculo, também um site, workshops, conversas, e colaborações com os diversos artistas convidados para este projeto: a professora e artista da dança Helena Bastos, a musicista e multi-instrumentista Andreia Drigo, o diretor de teatro e iluminador Roberto Gil Camargo, a especialista em canto lírico Márcia Mah, a bailarina e educadora somática Adriana Pinheiro, a atriz e produtora Paola Bertolini, o cantor e percussionista Ramon Vieira.

A surpresa, desta vez, é que embora estejam apenas as duas no palco, não se trata de um duo, pois a música se enuncia como uma terceira presença. Não como um personagem, mas como uma fisicalidade. Às vezes, materializa um sopro, um vento ou um balançar, às vezes aparece como um pedido de silêncio na forma de um “shh” que assobia. Em vez de acumular, pratica um esvaziar constante. Não desenha círculos que se fecham, mas rabiscos que pespontam anúncios que não se completam.

Aos poucos, sonoridades vão virando vestígios de melodia, duas vozes vão se desenhando para que dois corpos possam ser identificados pelo movimento que lhes dá forma, movimento esse que tanto vem das sonoridades quanto lhes faz nascer. O enovelamento deles se atualiza em um processo de assimetrias barroquizantes, que vai misturando xaxado com flamenco, pas de deux com violão e “pandeiro face” (pandeiro se tornando rosto, rosto se tornando pandeiro).

As mãos vão abrindo um caminho no ar para que a música de Bach (1685-1750) e Christian Petzold (1677-1733) possa começar, e então ela, a música, permite que os gestos passem a se organizar em frases mais longas. Parece uma condição para que outras sonoridades possam, então, surgir. Mas o curioso é que elas se agregam não para sustentar, mas para interromper os gestos que com elas se enroscam.

Não mais uma trilha sonora, mas agora uma arquitetura de sonoridades que se monta como coreografia, borrando um pouco os domínios de cada uma delas. Aqui, som e gesto de dança se respiram, se tornam condição do outro poder existir.

Um violão-corpo, um acordeom-corpo, um corpo-pandeiro, um corpo-castanhola. As bailarinas foram despertas para outros fazimentos, que precisam apagar os contornos da música e da dança para que ambas se materializem uma na outra. Corpo e sonoridades vão se testando, ensaiando o que pode virar corpo, o que pode virar música. Curiosamente, parecem agora ambicionar ser uma arquitetura capaz de construir uma língua própria que ensaia sair.

Peças Fáceis verticaliza, na trajetória do Grupo Pro-Posição, os estudos sobre memória e gesto (de dança e de música), levando-os da escala da história para a da cultura e, ao mesmo tempo, evidencia, na dança de Andreia e Janice, uma polifonia temperada com humor e leveza. Agora, essa dança regurgita as referências abocanhadas, tecendo-se em um barroquismo de preciosidades.

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