Nana Moraes
Nana Moraes

Peça 'Sem Palavras' traz provocações contra a apatia

Dirigido por Marcio Abreu, espetáculo reúne pequenas ficções que mostram a transformação dos personagens

Dirceu Alves Jr., Especial para o Estadão

20 de janeiro de 2022 | 10h00

Para começo de conversa, o diretor e dramaturgo Marcio Abreu, de 50 anos, avisa que passa por uma sensação de alívio diante da perspectiva de ver a Companhia Brasileira de Teatro no palco a partir desta quinta, dia 20. O artista, calejado por quase dois anos de pandemia, pede o direito da animação devido à primeira temporada nacional de Sem Palavras, montagem que ocupa o Teatro do Sesc Pompeia, de quintas a domingos, até 20 de fevereiro. “Nossa, foi a peça mais difícil que já coloquei de pé, então é hora de soltar o verbo, de falar com as pessoas, porque é para elas que faço teatro, não é para mim”, justifica Abreu, que toca o projeto junto ao seu grupo desde março de 2020, dias antes de o mundo pifar.

O espetáculo foi construído em residências esparsas nas cidades de Lindóia e Cotia, no interior paulista, e Santa Rita do Sapucaí, em Minas Gerais, além de processos virtuais e presenciais no Sesc Ipiranga (SP) e Oi Futuro (RJ), entre 2020 e 2021. “Parece que o ano de 2020 é um aparte, tanto que eu me perco na hora de precisar datas e fatos”, diz ele. Sem Palavras, no entanto, ganhou a cena pela primeira vez na Europa. Em setembro passado, as sessões foram no Passages TransFestival, em Metz, e no Théâtre Dijon Bourgogne, em Dijon, ambos na França. “Chegamos à Europa e enfrentamos uma quarentena severa, não nos encontrávamos nem para ensaiar, mas esse primeiro contato com o público serviu como afirmação.”

De lá, a Companhia Brasileira de Teatro seguiu para a Alemanha, com apresentações no Künstlerhaus Mousonturm, em Frankfurt, e, em novembro, no Brasil, fez duas sessões na Ocupação Mirada, em Santos. Abreu, claro, reconhece que o avanço da variante ômicron exige cautela triplicada na temporada paulistana, mas pretende aproveitar qualquer chance de quebrar a acomodação dos espectadores. “O meu objetivo é encontrar maneiras de falar sobre as coisas, construir caminhos que os sensibilizem e os levem a pensar em uma reação contra tudo o que vivemos.”

Sem Palavras fecha uma trilogia iniciada com Projeto Brasil (2015), que reunia diferentes falas entre a performance, a música e o teatro, e seguida por Preto (2017), um olhar sobre o racismo e a negação das diferenças. Desta vez, o discurso é menos evidente, não há uma temática explícita. A inspiração veio do livro Um Apartamento em Urano, Crônicas da Travessia, do filósofo espanhol transgênero Paul B. Preciado, e uma série de reportagens da jornalista Eliane Brum sobre uma expedição ao Polo Sul, que se interligam, na visão de Abreu, pela abordagem poética dos fatos. “A peça é construída por olhares para corpos em deslocamento, são pequenas ficções articuladas a partir da transição, da transformação, de mudanças por histórias de amor ou de violência.”

Oito pessoas passam por um apartamento e o comportamento de cada uma delas motiva reflexões sobre machismo, racismo, homofobia ou transfobia. Os atores e atrizes Fábio Osório Monteiro, Giovana Soar, Kauê Persona, Kenia Dias, Key Sawao, Rafael Bacelar, Viní Ventanía Xtravaganza e Vitória Jovem Xtravaganza compõem o elenco, que se completa com o músico Felipe Storino, responsável pela trilha sonora. “Muitas vezes, eu trabalhei individualmente com cada um por três ou quatro horas para não expor ninguém a um possível contágio do vírus e, assim, construí solos pontuados por poucas dinâmicas coletivas”, conta.

Sem Palavras aborda o esgotamento do verbo, justamente por sua banalização, pela falta de respeito a ele. “A palavra perdeu o lugar de confiança, nos sentimos usurpados porque ouvimos e lemos informações que nos confundem o tempo todo”, observa. O dramaturgo e diretor salienta que leva ao palco ainda relações com um país em ruínas e capaz de fechar os olhos para a própria história. “O Brasil decidiu se recolonizar em busca de um modelo norte-americano, que, na verdade, não deu certo nem lá, mas somos levados a crer que sim.”

Projetos despontam em horizontes não muito distantes para Abreu. O mais concreto deles é uma releitura para o clássico A Gaivota, de Anton Tchekhov, com, entre outros, a atriz Renata Sorrah, feita nos formatos de peça e filme. O outro trabalho, uma direção a quatro mãos com Enrique Diaz, ambiciona juntar no mesmo palco as atrizes Andréa Beltrão, Marieta Severo e Ana Baird, além de Renata. “Mas este ainda passa por uma fase inicial de conversas, o que, agora, estou tentando mesmo é manter minha saúde emocional e física para não tombar”, declara o artista, cansado depois de quase dois anos de incertezas.

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