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Peça ‘Próxima Parada’ traz à tona vínculo entre os dramaturgos José Vicente e Antonio Bivar

Montagem de Cesar Augusto estreia nesta sexta-feira, 30, no Rio

Daniel Schenker , Especial para O Estado de S. Paulo

30 Janeiro 2015 | 03h00

RIO - No livro Dramaturgia Brasileira Contemporânea, Geraldo R. Pontes Jr. traz à tona a efervescência da chamada Geração de 1969, composta por autores como José Vicente, Antonio Bivar, Leilah Assumpção, Consuelo de Castro, Isabel Câmara e Carlos Queiroz Telles, que assinaram textos emblemáticos durante a fase de acirramento da ditadura após o AI-5. 

Desse grupo, os dois primeiros são abordados na montagem de Próxima Parada - que estreia nesta sexta (30), na Sala Multiuso do Espaço Sesc, no Rio -, ainda sem previsão para desembarcar em São Paulo.

José Vicente, que morreu em 2007, ganhou projeção nos espetáculos do Teatro Ipanema, coletivo liderado por Rubens Corrêa e Ivan de Albuquerque, que encenou quatro peças do autor mineiro: O Assalto, Hoje É Dia de Rock, Ensaio Selvagem e A Chave das Minas. Destas, a montagem ritualizada de Rock sensibilizou a juventude da época por expressar os valores e as utopias do início da década de 1970.

Antonio Bivar se formou como ator no Conservatório Nacional de Teatro, mas enveredou pela dramaturgia com sucesso. Escreveu textos que renderam montagens relevantes, como Cordélia Brasil, a cargo de Emílio Di Biasi, Abre a Janela e Deixa Entrar o Ar Puro e o Sol da Manhã, conduzida por Fauzi Arap, O Cão Siamês ou Alzira Power, levada ao palco por Di Biasi e, logo após, por Antonio Abujamra, e Longe Daqui, Aqui Mesmo, também por Abujamra.

Próxima Parada nasceu da reunião de um grupo de atores, capitaneado por Cesar Augusto, em torno do elo entre Vicente e Bivar, que foram não só colegas de trabalho como amigos da vida inteira. “Eu o conheci em Ribeirão Preto. A sintonia foi imediata. Quando ele veio me visitar no Rio, levei-o para assistir a A Volta ao Lar. Ele adorou e passou a escrever para teatro. De repente, virou o maior autor brasileiro”, afirma Bivar, mencionando a montagem do texto de Harold Pinter dirigida por Fernando Torres, em 1967, que contava com Ziembinski e Sergio Britto no elenco.

Cesar Augusto percebeu que as jornadas de Vicente e Bivar se complementavam. Junto com os atores (entre eles, Haroldo Costa Ferrari, que participou da encenação de Santidade, de José Vicente, no Teatro Oficina), mergulhou no universo dos dois autores, não “apenas” no que se refere à produção dramatúrgica, mas à correspondência que trocaram ao longo dos anos. Preciosidades foram descobertas, como uma peça escrita por ambos (não finalizada). “José Vicente mandou uma carta para Bivar, dizendo que ele deveria dar continuidade ao trabalho. Bivar não terminou o texto e o enterrou. Literalmente.”

Augusto (com Felippe Vaz) criou um texto que reúne tópicos importantes. “Falamos sobre exílio, viagens, o não reconhecimento no seu país e também sobre memória, convivência social e política”, enumera Augusto. 

Bivar morou em Londres e NY num momento bastante intenso de sua vida. “Ganhei passagem do Prêmio Molière e fui para Londres. Passei 1970 na cidade, que reunia o mundo pop. Não sei como consegui viver um ano sem dinheiro. Tinha vendido os direitos de Cordélia Brasil para Rodolfo Nanni e viajei com menos de US$ 1.000”, diz Bivar. 

Quando estava em São Paulo, apresentando a montagem de Conselho de Classe, Cesar Augusto conheceu Antonio Bivar. Assim, Augusto teve acesso a imagens registradas por Bivar em Super 8. Existem diversas conexões entre Vicente e Bivar. Mas Augusto tomou cuidado para não incorrer em equivalências forçadas. “Eles travaram uma relação de irmandade e, apesar de muito ligados, Vicente e Bivar devem ser vistos como pessoas distintas”, destaca ainda Cesar Augusto. 

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