Marco Aurélio Olimpo
Marco Aurélio Olimpo

Peça promove diálogo entre Brasil e Pérsia

Falando sobre Irã, espetáculo celebra os 35 anos do grupo Sobrevento

Bruno Cavalcanti, Especial para o Estadão

18 de março de 2022 | 20h00

Em 2010, a convite de um dos principais festivais de teatro do Irã, o grupo Sobrevento levou parte de seu repertório para uma série de apresentações que resultaram num processo de imersão na cultura persa e a descoberta de que, popularmente tida como exótica, ela tinha muito mais similaridades com os costumes e as artes brasileiras do que se imaginava.

“Ficamos muito intrigados”, revela Luiz André Cherubini, diretor e co-fundador da Cia. “O Irã não é tão exótico como pensamos, ele tem uma cultura muito familiar. Ouvimos muitas histórias que pareciam vindas de um país distante, mas eram semelhantes com as nossas próprias histórias. É o mesmo espírito em muitas manifestações. O ano novo tem muitas semelhanças, a folia de reis, são histórias e desenhos muito semelhantes”, analisa.   

Embora passageira, a imersão nunca deixou a memória de Cherubini e da também diretora e co-fundadora Sandra Vargas, com quem desenvolveu Pérsia, espetáculo em cartaz na sede da companhia, no bairro do Belenzinho, desde o dia 11 com sessões gratuitas. “Nós tratamos de misturar essas histórias de amigos iranianos e outras pessoas que entrevistamos”, explica.

O espetáculo é justamente a costura de histórias persas e brasileiras que se irmanam através da similaridade cultural. “Tratamos de misturar no espetáculo música brasileira e persa, poesia brasileira e persa, danças brasileiras e persas. A ideia do persa vem de uma cultura que é mais do que iraniana. No nordeste, por exemplo, temos o pandeirão, que é tocado no maracatu de forma muito semelhante ao daf, um instrumento persa muito antigo. Temos o nosso violão que tem como antepassado o tanbur e o setar”, enumera Cherubini.

O espetáculo chega à cena para celebrar os 35 anos de trajetória do grupo, que desenvolveu repertório próprio e construiu forte trajetória internacional. “Fazemos os espetáculos, mas não nos desfazemos deles, eles têm vida longa. Houve uma época em que vivíamos de apresentar o repertório na Europa, e só começamos a circular pelo Brasil quando o governo passou a desenvolver políticas públicas voltadas para a subvenção de companhias, entendendo isso não como verba dada aos artistas, mas um projeto que leva a cultura para todos os lugares e camadas sociais”, explica Sandra Vargas.

“Quando a gente entende que a política pública da cultura é para isso, para o desenvolvimento cultural do ponto de vista do cidadão, não caímos nesses discursos errados de pensar que os artistas vivem da verba do governo. É como se falássemos em saúde pública: vamos cortar a verba porque os médicos estão ganhando muito? O médico é fundamental para a saúde, e o cidadão tem tanto direito à saúde quanto à cultura”.  

A diretora analisa que, mercadologicamente, embora não precise dar lucro, a cultura se mostra uma forma de investimento mais segura do que os discursos populares fazem parecer. “A Cultura gera muito trabalho e dinheiro em uma cadeia de produção. Às vezes mais do que a indústria automobilística, por exemplo. Como trabalhamos no teatro, com cultura viva, de se apresentar todo dia, isso movimenta muito dinheiro. Falta essa compreensão. Nosso espetáculo tem a Lei de Fomento ao Teatro, então apresentamos com entrada franca, porque estamos em um bairro economicamente mais frágil. Mas sempre esclarecemos que não é gratuito. O dinheiro dos impostos pagos por aquelas pessoas pagam o espetáculo. Fomos pagos pela pesquisa com dinheiro do contribuinte. A cultura não é um luxo”.

Vargas finaliza com uma denúncia acerca do sucateamento das políticas de incentivo à cultura que foram deixando de ser produzidas ao longo dos últimos anos. “Não temos mais o Prêmio Myriam Muniz, não temos mais as ocupações da Caixa Cultural, várias coisas foram cortadas. Em São Paulo, temos a sorte de ter uma classe teatral organizada e isso faz com que lutemos por nossas políticas públicas, mas esse é só um mercado, e os outros? Não é possível o desenvolvimento cultural de uma cidade sem o apoio do poder público”.

 

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