Rodrigo Chueri
Rodrigo Chueri

Peça 'Pra Você Lembrar de Mim' aborda os dramas de quem cuida de pessoas com Alzheimer

No drama escrito por Regiana Antonini, o inevitável é a perda progressiva da memória de uma personagem criada para ser um exemplo de mente brilhante

Bruno Cavalcanti, Especial para o Estadão

13 de agosto de 2021 | 05h00

Em uma das passagens mais tocantes do drama Pra Você Lembrar de Mim, Eduardo Martini mira o vazio infinito com o olhar perdido de seu personagem, Hélio, acometido de um quadro de Alzheimer precoce. Acarinhado pelo colo de sua filha, a advogada Bruna, murmura os versos de Let it Be, a clássica balada dos Beatles lançada em 1970, que retrata a necessidade de aceitar o inevitável.

No drama escrito por Regiana Antonini, o inevitável é a perda progressiva da memória de uma personagem criada para ser um exemplo de mente brilhante. Um jornalista premiado e bem-sucedido. Em contraste está o desespero silencioso de sua filha única, que se divide entre a profissão de advogada e os cuidados com o pai. E é esta relação a espinha dorsal do espetáculo que chega ao palco do Teatro União Cultural nesta sexta, 13.

“Ela está esgotada e precisa muito ser resistente, ser forte, mas o cansaço é físico e mental e ele vem a todo momento”, explica Carina Sacchelli, intérprete de Bruna. “Como atriz, tentei buscar um estado de constante exaustão, passando por momentos de falta de paciência, irritabilidade e, claro, tristeza.”

A artista divide a cena com Eduardo Martini, que, em cena, enfrenta aquilo que considera um dos maiores desafios de sua trajetória artística, que, em 2022, completa 45 anos. “É desafiador porque a composição é uma matemática. Eu, enquanto ator, posso me emocionar, mas a personagem não sente emoção, quem se emociona é quem cuida. E descobrir esse jogo é uma matemática complicada, mas muito prazerosa”, conta ele, que vive um desafio constante a cada ensaio.

Seu pai, Milton Martini, saiu de cena em 2008, como vítima do mal de Alzheimer. “Na primeira leitura eu já me emocionei demais porque me lembrei dele, e tem sido assim sempre. Mas meu profissionalismo para contar essa história precisa ser maior, porque não é só a realidade do meu pai, é de muita gente, e precisei me afastar dessa emoção, de lembrar dele o tempo todo para eu poder atingir o personagem e fazer desta uma história verídica”, diz. 

“É uma história de sofrimento, de tristeza, de dor e de cansaço, acima de tudo, para a pessoa que cuida de um paciente dessa maneira. E escolhemos falar sob essa ótica para que o público também possa se espelhar nessa história”, completa.

A despeito da longa amizade entre o ator e a dramaturga, a peça não é sobre o pai de Martini, mas o resultado de um desejo antigo do ator com sua colega de cena. “Queríamos contar uma história relevante de pai e filha. Esse foi o fio condutor de tudo, talvez pela amizade, parceria e admiração mútua que temos há anos. Pensamos na Regiana, pois ela transita muito bem entre o humor e o drama e chegaria nesse drama contemporâneo que imaginávamos”, conta Sacchelli, que reforça o viés que a peça adotou ao longo dos ensaios.

“Ela evidencia o trabalho árduo dos familiares e cuidadores. Já é sabido que o paciente com esse tipo de demência sofre, mas validarmos as angústias e preocupações dos familiares desse paciente é algo necessário e justo. Eles são as vítimas ocultas da doença, pois são afetados, mas de forma diferente. Estão totalmente conscientes sobre a gravidade da doença.”

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