Murilo Alvesso
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Peça 'Os Filhos' lança olhar introspectivo para as memórias familiares

Na peça, os atores e dramaturgos Anna Toledo e Zé Henrique de Paula unem forças em solos com relatos sobre a figura do pai

Bruno Cavalcanti, Especial para o Estadão

11 de fevereiro de 2022 | 20h00

Foi por uma sincronia que apenas o teatro explica que, no ápice da pandemia do coronavírus, quando o mundo ainda se guardava em isolamento social intenso em meados de 2020, a atriz, cantora e dramaturga Anna Toledo e o diretor, dramaturgo e ator Zé Henrique de Paula passaram a lançar olhar introspectivo e constante para suas memórias no âmbito familiar.

Por coincidência, a dupla, sem saber, desenvolvia textos sobre suas respectivas relações com a figura paterna, num processo que, quando compartilhado entre a dupla, rendeu mais do que o incentivo da continuidade, mas um espetáculo. “Quando Anna e eu percebemos que estávamos escrevendo em paralelo sobre o mesmo tema, resolvemos firmar a parceria e desenvolver o projeto juntos”, conta Zé Henrique de Paula que, intuitivamente, se lançou a escrever como meio de sanar o desejo de produção.

“Sem poder realizar quaisquer atividades presenciais, me lancei na escrita, sem grandes expectativas e mesmo sem um norte definido. Todavia, toda vez que me sentava para escrever, o texto caminhava ‘sozinho’ para uma espécie de resgate da minha relação com meu pai – e como essa relação se deu e evoluiu até a sua morte, 18 anos atrás.”

Deste encontro, nasceu Os Filhos, espetáculo que ganhou temporada digital em 2021 e que estreou no palco do Teatro do Núcleo Experimental, estrelado pelos autores sob a direção de Zé Henrique de Paula. “São cacos de memórias colados com a cola da invenção. A própria fragilidade destas memórias é um dos temas que abordamos na peça. Ao escrever, a gente ‘emburacou’ temerariamente. Na hora de fazer, de falar, de colocar as palavras no corpo é que a gente percebeu o tamanho da dificuldade”, explica Toledo.

O espetáculo é formado por dois solos distintos. Em Fragmentos Caninos, Anna Toledo vive uma mulher que reúne fragmentos de lembranças de um período traumático de sua vida, quando o pai vivia na clandestinidade. Já em Lata Velha, Coração de Papel, Zé Henrique de Paula vive um homem que relembra o relacionamento com seu pai através dos carros que passaram pela sua família, fazendo brotar, de cada automóvel, uma lembrança que leva a outra.

“Durante a feitura do texto, foi importante perceber o quanto a memória é uma construção cheia de filtros, desejos, parcialidade e sujeita ao nosso momento atual. Os lugares são sim muito sensíveis, doloridos, às vezes. Mas para além do resgate da relação, os textos também fazem uma espécie de acerto de contas com as figuras do pai, permeadas de um olhar de compreensão das fraquezas da relação – um olhar amoroso, nostálgico, sensível, mas cheio de afeto e compaixão”, conceitua o diretor.

Em cartaz até 6 de março, Os Filhos chega ao palco após bem-sucedida temporada online. A experiência, contudo, não deve passar disso: uma passagem rápida da dupla pelo ambiente virtual. “Particularmente, não tenho grande interesse pelo online. Sou do teatro presencial, do risco sempre eletrizante de colocar pessoas na mesma sala e fazer o teatro acontecer ao vivo, no tempo e no espaço real, concreto”, diz Zé Henrique.

“Experimentar uma linguagem híbrida, que soma teatro e cinema, foi muito estimulante. E tivemos um público muito bom, em termos de visualizações – mais gente do que teríamos numa temporada presencial, até porque a plataforma online é geograficamente mais acessível. Me parece um caminho sem volta. Porém a experiência da fruição é incomparavelmente mais intensa no teatro presencial. O encontro com o público, o risco do inesperado e a mágica que acontecem diariamente no palco, não há nada igual”, finaliza Toledo. 

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