José Eduardo Limongi
José Eduardo Limongi

Peça online trata do 'Clube dos 27', os músicos que morreram aos 27 anos

Dirigido por Vera Holtz, Guilherme Leme Garcia e Gustavo Leme, '27's' fala do 'clube' de Janis Joplin, Jimi Hendrix, Jim Morrison, Kurt Cobain e Amy Winehouse

Maria Eugênia de Menezes, Especial para o Estadão

27 de março de 2021 | 05h00

Uma estranha coincidência circula no mundo da música como uma maldição. Janis Joplin, Jimi Hendrix, Jim Morrison, Kurt Cobain e Amy Winehouse: além de ídolos de suas gerações, todos eles morreram precocemente aos 27 anos. É sobre essa história que se debruça 27’s – um experimento cênico e audiovisual, dirigido por Vera Holtz, Guilherme Leme Garcia e Gustavo Leme, que estreia sábado, 27, às 19h, no canal do YouTube (bit.ly/espetaculo27s). Quem protagoniza a obra é o ator Gustavo Rodrigues, movido pelo interesse não apenas pela produção musical dos artistas retratados, mas também pelas circunstâncias que envolvem a morte de cada um. 

Em um de seus espetáculos recentes, Billdog 2, o intérprete trazia música ao palco e reaproximou-se de sua formação original como guitarrista. A realização de 27’s, portanto, dá vazão a esse desejo – de unir as duas linguagens – assim como sublinha a sua predileção por temáticas contundentes e interpretações viscerais. “Tive algumas bandas, mas fiquei um tempo longe da música, me dedicando ao teatro. Billdog trouxe de volta essa necessidade de me expressar musicalmente e eu percebi que essas eram situações muito prazerosas, tanto para mim quanto para o público”, comenta o ator. Na peça, Rodrigues vive os cinco personagens, costurando as representações com um viés autobiográfico. 

Na dramaturgia encomendada a Daniela Pereira de Carvalho – nome de destaque da atual geração de autores cariocas –, um roqueiro frustrado passou por uma experiência de quase morte aos 27 anos, o que faz com que ele se sinta ligado à trajetória desses outros músicos. Hoje com mais de 40 anos, o personagem Virgílio – uma explícita referência ao protagonista de Dante Alighieri – guia o espectador a uma visita ao seu inferno pessoal. A dialogar com o enredo, somam-se 14 canções, executadas em cena por uma banda de cinco integrantes. 

Dedicado a uma longa pesquisa sobre a tragédia, Guilherme Leme Garcia dirigiu nos últimos anos criações como RockAntygona, uma versão pocket da tragédia de Sófocles, e Trágica 3, releitura de três grandes personagens femininas da dramaturgia grega clássica: Medeia, Antígona e Electra. Para a direção de 27’s, ele diz ter trazido a experiência dessas reflexões. “Esses ídolos são os heróis trágicos do nosso tempo”, considera o encenador. “O que permeia toda a história das tragédias não é a culpa, mas o erro trágico. Aquela situação em que a humanidade se desvia de um determinado caminho por uma ação.” Para os estudiosos, Édipo Rei é o mais perfeito exemplar de tragédia. Justamente porque ali o herói não comete o erro por perfídia ou falha de caráter, mas por ignorar os efeitos de suas atitudes. 

Um traço comum entre as personalidades presentes em 27’s é o descomedimento – resultado do somatório entre fama, vício em drogas e profundas angústias existenciais. Na trama, Virgílio comenta sua relação com cada um dos ídolos e o contexto de suas mortes. Kurt Cobain teria se matado se o Nirvana não tivesse passado de uma banda de garagem em Seattle? “Porque, para perdedores, como nós, o sucesso é muito tóxico”, diz o personagem-narrador. “A gente está acostumado a ser um lixo... Aqueles milhões de pessoas te idolatrando... Te amando... Gritando seu nome... Dá um curto-circuito psíquico... Ele não estava preparado para tanto amor.” 

Desde o início do processo de criação, os diretores sabiam que não pretendiam apresentar uma peça filmada, mas uma obra híbrida, que mesclasse procedimentos do teatro à linguagem do cinema. “Se a pandemia trouxe algo de bom para o cenário artístico, foi justamente o uso desse novo suporte, dessa nova maneira de criar”, considera Guilherme Leme. Para compor a equipe criativa, ele convidou seu irmão, o diretor de cinema e publicidade Gustavo Leme. Estabeleceu-se, dessa maneira, uma tripartição das tarefas da direção: Guilherme cuidou do desenho da encenação, Gustavo, da parte cinematográfica e a interpretação ficou a cargo de Vera Holtz. 

“Hoje, a nossa caixa de criação, o nosso palco, é essa tela”, considera a atriz e diretora, que mantém uma longa relação de parceria artística com Guilherme Leme. “Lógico que isso exigiu um novo método de criação. É preciso lembrar que quem vai captar aquela ação não é mais uma plateia, com um ponto de vista frontal, mas uma câmera, que conduz o seu olhar. Também foi preciso fazer uma equalização do gestual e da voz do ator, que não precisa mais de todo aquele volume do palco.” 

Para gravação das imagens, cogitou-se a ambientação em um teatro de verdade. “Haveria um único plano-sequência. A câmera bailaria em volta do personagem, e a tomada sem cortes permitiria que o ator mantivesse o ritmo e emoção da sua interpretação”, diz o cineasta. O agravamento da pandemia, porém, fez com que essa proposta tivesse de ser revista e adaptada. Toda a encenação se deu dentro de um ateliê na casa do ator, no Rio de Janeiro. E, junto com a captação com câmeras profissionais, o público assistirá a passagens que foram gravadas com o uso do celular. “Claro que tudo isso nos trouxe um caminho difícil, tortuoso”, pondera Gustavo Leme. “Mas também mais honesto com o que estamos vivendo porque abraça o risco.”

'Um artista multimídia cria algo híbrido', diz Vera Holtz

O trabalho artesanal de unir teatro com os recursos do audiovisual foi dividido entre três profissionais: Gustavo Leme, que cuidou da filmagem, utilizando o plano-sequência; Guilherme Leme Garcia, responsável pela encenação; e Vera Holtz, que trabalhou a interpretação, em sua primeira experiência na direção remota.

Como foi criar durante a pandemia? 

Durante este período, tentei manter a minha rotina e para nós, artistas, criar é a rotina. Essa foi a minha experiência com uma direção feita remotamente e percebi que isso exigiu de mim uma atenção dobrada e uma metodologia diferente, para me relacionar com o ator e para conduzi-lo aonde ele tem que chegar. 

Qual o espaço do teatro dentro de uma obra audiovisual? 

Esse espaço já foi ocupado. Veja a pesquisa que os Satyros já vinham desenvolvendo sobre isso nas plataformas virtuais. Os diretores de teatro costumam criar obras mais aproximadas do teatro, assim como os criadores do audiovisual também estarão mais próximos da sua área. Mas existem aqueles que são artistas multimídias e conseguem ir misturando todas essas linguagens, criando algo híbrido, e é isso que a gente está vendo. Ainda é algo que estamos aprendendo, uma nova forma de escrita, para a qual sequer existe um nome ainda. 

Como você define a sua parceria criativa com Guilherme Leme Garcia? 

A nossa parceria vem desde os anos 1990, quando fizemos uma novela chamada Corpo e Alma. É difícil definir essa nossa relação. Segundo o Guilherme, é uma dádiva. E é mesmo uma dádiva misteriosa, um presente da vida, mas difícil de definir porque não existe um limite. Entre nós, tudo é muito junto, tanto o trabalho quanto a vida. 

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