Priscila Prade
Priscila Prade

Peça retrata a amizade do estilista Dener e a ex primeira-dama Maria Thereza Goulart

Espetáculo mostra como ele ajudou a esposa de Jango a se impor com elegância no País diante de uma sociedade machista

Dirceu Alves Jr., Especial para o Estadão

15 de março de 2022 | 15h00

O casal Aida e Miguel José Dip, que vivia em São Borja, no Rio Grande do Sul, pegou uma carona no pequeno avião de João Goulart (1919-1976) para facilitar a viagem até Porto Alegre. Dip trabalhava com a comercialização de arroz, cultivava amigos comuns com o vice-presidente da República e, inclusive, lhe deu conselhos sobre boatos que circulavam em torno de infidelidades à sua jovem mulher, Maria Thereza. Eram meados de 1961, e o temperamento instável do presidente Jânio Quadros (1917-1992) despertava a atenção sobre os rumos do País. “Minha mãe, que estava grávida de mim, fala que Jango mostrava lá do alto suas terras a meu pai e sempre imaginei as conversas entre os dois”, conta a atriz Angela Dippe, que alterou ligeiramente seu sobrenome. 

Com o espetáculo Maria Thereza e Dener, Angela, seis décadas depois, busca lembranças de infância para levar à cena a fascinante personalidade da mulher do ex-presidente. A montagem, dirigida por Ricardo Grasson, que estreia nesta quarta, 16, no Teatro Eva Herz, tem dramaturgia de José Eduardo Vendramini baseada na biografia Uma Mulher Vestida de Silêncio, escrita por Wagner William e publicada em 2019. Pouco antes do começo da pandemia, a artista comprou o livro e o levou para Porto Alegre, onde ficou seis meses quarentenada com a mãe. “Nesse período, minha mãe rememorou tantas histórias do Jango que eu, fascinada, enxerguei a oportunidade de realizar um trabalho que também homenageasse a memória do meu pai”, diz. 

O espetáculo traz à tona as vivências da ex-primeira-dama a partir da amizade com o estilista Dener Pamplona de Abreu (1937-1978) que, no palco, é representado pelo ator Thiago Carreira. “Não seria possível condensar uma vida tão rica em pouco mais de uma hora”, justifica Angela o recorte adotado pelos dramaturgos. “Além de confidente da Maria Thereza, Dener é outro grande personagem, o pioneiro da alta-costura no Brasil e ele enxergou nela uma estrela a ser lapidada.” 

 Foi ele o responsável pela transformação da menina interiorana em símbolo de elegância e sofisticação, comparada à americana Jacqueline Kennedy. “O Dener, muito bem relacionado, tapou a boca da elite paulistana preconceituosa que apontava mil defeitos nela”, conta Angela. Maria Thereza foi a primeira esposa a acompanhar um presidente em compromissos que fugiam da esfera social e subiu ao seu lado em palanques nos períodos de turbulência. “Embora tímida, sempre foi autêntica, firme e, se a gente pensar que, na geração dela, as mulheres eram criadas para serem submissas, ela desponta como modelo de feminismo”, completa a atriz. 

Thiago Carreira, de 37 anos, admite que nem sequer tinha ouvido falar de Dener antes do projeto e acha fundamental a sua geração tomar conhecimento dos dois personagens. “Eles participaram de uma época em que tudo estava sendo formado no Brasil, o cinema, a música, o teatro, a moda, e a peça, através dos dois, traz informações que ajudam a explicar as circunstâncias do golpe de 1964”, diz o ator, que adota um caminho menos realista para compor o estilista.

A presença de Maria Thereza é aguardada na estreia. Angela confessa o nervosismo só de saber que sua inspiração poderá vê-la da plateia. “Estou ensaiando e repetindo o texto inúmeras vezes para não ser traída pela emoção”, diz.

Um contato mais íntimo foi realizado há duas semanas, quando a protagonista e o diretor se encontraram pela primeira vez com a ex-primeira-dama, de 81 anos, no Rio de Janeiro. O cenário da conversa teve vista para a Lagoa Rodrigo de Freitas, na zona sul, no apartamento onde vive Denize, filha dela. “Maria Thereza nos esperou na porta de braços abertos, disponível, dizendo ‘que bom que vocês estão aqui, queria muito conhecê-los’”, conta Grasson. Uma conversa franca atravessou mais de duas horas e revelou detalhes íntimos. “Ela me falou como o Jango era fechado e até melancólico, um homem típico dos pampas que já nasce escondendo as emoções”, lembra a protagonista.

Grasson não segurou a curiosidade e perguntou como foi o dia do golpe. “Maria Thereza fala que estava em Brasília com os dois filhos quando um assessor avisou que eles tinham uma hora para preparar a mala de cada um e tomar um avião para Porto Alegre, onde estaria Jango, e depois ninguém sabia o destino”, descreve o encenador. “Ela passou dois dias em uma fazenda sem notícias do marido, antes de ir para o Uruguai.”

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