Natalia Angelieri
Natalia Angelieri

Peça ‘Modernistas’ questiona a ausência de negros e mulheres na Semana de 22

Peça propõe diálogo com o evento do início do século passado e faz provocações, como ‘Pauliceia Desvairada’em interpretação rap

Dirceu Alves Jr., Especial para o Estadão

29 de abril de 2022 | 05h00

Com a peça História do Brasil, produzida em 2019, novas janelas se abriram na cabeça da atriz, diretora e dramaturga Alexandra Golik, de 57 anos, e questões pouco refletidas passaram a incomodá-la. A montagem, voltada para as crianças, recorria ao lúdico para mostrar os principais fatos ocorridos no País, desde a chegada de Pedro Álvares Cabral por aqui, em 1500, até os primeiros anos do século 21. “Percebi os negros excluídos dos registros oficiais e as mulheres esquecidas ou relegadas a um segundo plano”, afirma a artista. “Ao mesmo tempo, reconheci a reprodução de um olhar viciado ao meu redor e entendi que, pelo menos, a minha mentalidade deveria mudar com urgência.”

Essa inquietação originou o novo trabalho escrito e dirigido por Alexandra, Modernistas, que fica em cartaz no Teatro Viradalata até 8 de maio em sessões presenciais e engata uma temporada digital a partir do dia 14 no YouTube da Cia. Viradalata. O espetáculo adulto remete aos bastidores da Semana de Arte Moderna de 1922 para tratar das transformações culturais e históricas daquele período capazes de dialogar com os dias atuais. Para isso, Alexandra joga luz à presença negra e feminina, mesmo que indireta, que vai além de nomes festejados até hoje. Em cena, as pintoras Tarsila do Amaral (interpretada por Bebel Ribeiro) e Anita Malfatti (papel de Rennata Airoldi), o pintor Di Cavalcanti (o ator Diego Rodda) e os escritores Oswald de Andrade (vivido por Marco Barretho) e Mário de Andrade (representado pela atriz Joice Jane Teixeira) discutem questões que definiriam a manifestação ocorrida no Teatro Municipal de São Paulo um século atrás.

Provocações não são descartadas. Os poemas de Pauliceia Desvairada, de Mário de Andrade, são interpretados em uma versão rap, e Rennata Airoldi protagoniza uma coreografia ao som das Bachianas de Villa-Lobos. Como forma de reiterar a participação negra na cultura brasileira, nomes como os dos engenheiros Teodoro Sampaio e André Rebouças, o escritor Lima Barreto e o advogado Luiz Gama são tratados na peça. Mulheres pouco lembradas, como as artistas plásticas Antonieta Santos Feio, Abigail de Andrade, Bertha Worms e Julieta de França, ganham referências. 

Para Alexandra, chegou a hora de promover simbolicamente uma nova semana, a de 2022, para romper preconceitos persistentes. “A Semana de 1922 foi um marco pela ruptura da maneira de ver as coisas, eles queriam mudar para não emburrecer, algo que deve ser pensado hoje de novo”, diz. Com as devidas proporções e assumida humildade, Alexandra usa como sede o seu Teatro Viradalata, em Perdizes, inaugurado em 2013 e mantido com recursos próprios sem qualquer patrocínio. “Sobrevivemos da bilheteria; na pandemia, fechados, bancamos os sete funcionários fixos por um ano e oito meses”, afirmou a diretora. 

Polêmicas

A diretora se mostra destemida em relação às polêmicas. Para o papel de Mário de Andrade, escalou uma atriz, Joice Jane Teixeira, que é negra, mas pode enfrentar patrulhas por desempenhar um papel que seria mais natural nas mãos de um ator. “Não estou nem aí para essas discussões, até porque já imagino que podem me acusar também de não ter lugar de fala para tratar das questões negras”, declara a diretora que redecorou o saguão do Viradalata, com imagens dos cantores Emicida, Elza Soares e Márcio Alexandre, da vereadora carioca Marielle Franco (assassinada em março de 2018) e do ator e ativista Abdias do Nascimento. “Esse trabalho só quer esclarecer, ampliar o debate sobre a questão racial e jamais alimentar caricaturas.”

A temporada de Modernistas simboliza uma espécie de volta à vida - e não somente em razão da trégua dada pela pandemia. Em junho de 2020, Alexandra sofreu um AVC (Acidente Vascular Cerebral) que a paralisou durante um ano e ainda dificulta os movimentos do lado direito do corpo. Ela não sabe dizer se a doença suscitou a pressa de tocar em assuntos renegados por boa parte da sociedade. A artista enxerga essa nova fase como uma sequência de sua trajetória focada em ambições coletivas.

Dos seus 40 anos de carreira, pelo menos 30 deles priorizaram o teatro infantil e a atriz, diretora e dramaturga acredita no poder de informação que tem nas mãos. “Faz parte do meu trabalho apresentar novos universos aos jovens e pessoas menos esclarecidas e não quero mais perder tempo, preciso fazer coisas que sacudam a plateia”, diz.  

Serviço

Modernistas 

Teatro Viradalata (Rua Apinajés, 1.387, tel. 3868-2535)

Sábado às 20h30 e domingo às 19h

R$ 20/R$ 40

Até 8/5 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.