Leekyung Kim
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Peça 'Love, Love, Love' mostra acerto de contas entre as gerações

Com trama que começa em 1967 e vai até 2011, ‘Love, Love, Love’ delineia o retrato das cobranças entre pais e filhos

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

23 Março 2018 | 06h00

A trajetória de uma família em três momentos no tempo – a peça Love, Love, Love chega finalmente a São Paulo, no Teatro Vivo, com uma bagagem repleta de ressentimento e cobranças. Escrito pelo inglês Mike Bartlett, o texto apresenta o embate de gerações ao acompanhar o passar do tempo de um grupo de parentes.

A trama começa em 1967, quando acontece a primeira transmissão ao vivo de TV via satélite, com a imagem dos Beatles cantando All You Need Is Love. A música logo vai se revelar prenunciadora. Sandra, recém-ingressada na universidade, marca um encontro com Henry, mas se interessa mesmo pelo seu irmão mais novo, Kenneth, também de 19 anos.

A peça dá um salto até 1990, quando eles, já um casal de classe média, vivem de forma confortável, mas curiosamente são negligentes com os dois filhos, exibindo as rachaduras de um casamento que parece condenado. Finalmente, outra avançada no tempo até 2011, quando, durante uma reunião de família, a filha do casal, Rose, promissora violinista que não vingou, mulher de 37 anos amargurada, arremessa sobre os pais e sua geração de paz e amor a responsabilidade pelo fracasso da geração dela afirmando: “Você não alterou o mundo, você o comprou”.

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“Do hippie ao yuppie”, constata Yara de Novaes, uma das intérpretes da peça, que se reveza em diversos papéis nos três atos – o elenco é completado por Débora Falabella, Augusto Madeira, Alexandre Cioletti e Mateus Monteiro, todos dirigidos por Eric Lenate. “O mundo das coisas materiais acaba privilegiado em relação ao mundo das ideias. Bartlett retrata a sociedade capitalista, em que os ideais convivem com os desejos mundanos de viajar e frequentar restaurantes.”

De fato, o dramaturgo inglês é preciso ao apontar como uma geração libertária produz condições que paralisam as seguintes e também como ideologias são abandonadas quando mudam as condições sociais. Mas, a grande virtude está em não julgar nenhum dos lados: falhas e acertos aparecem em ambas as gerações.

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Yara forma o Grupo 3 de Teatro, ao lado de Débora e Gabriel Fontes Paiva, responsável pela iluminação do espetáculo. Juntos, já ofereceram verdadeiras pérolas teatrais em textos estimulantes – como Contrações, do mesmo Mike Bartlett. “Ele é contundente com o momento em que vivemos, é profundo e provocador ao mesmo tempo que tem uma escrita clara e objetiva”, observa Paiva. 

Atual em apresentar um conflito geracional, Love, Love, Love é também um texto político e psicológico. “Creio que o mais importante de seu texto é dar identidade aos personagens”, conta Yara. “São as representações sociais que nos dão uma individualidade e que fazem o espectador pensar nas falhas do outro. A arte transforma a realidade ao descrever uma família com todas as suas idiossincrasias e personalidades.”

SERVIÇO:

LOVE, LOVE, LOVE

Teatro Vivo. Av. Dr. Chucri Zaidan, 2460. Tel.: 3279-1520. 6ª, 20h. Sáb., 21h. Dom., 18h. R$ 50 / R$ 60. Até 27/5

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