Sintonia. Rodrigo Pandolfo e Denise Fraga. Foto: NILTON FUKUDA/ESTADÃO
Sintonia. Rodrigo Pandolfo e Denise Fraga. Foto: NILTON FUKUDA/ESTADÃO

‘Galileu Galilei’ vence o desafio de conciliar seriedade e diversão

Montagem, que discute liberdade do pensamento, é do ator e diretor Emílio di Biasi, artista fundamental do teatro brasileiro

Jefferson Del Rios , Especial para O Estado de S. Paulo

31 Julho 2015 | 19h45

Galileu Galilei, de Bertolt Brecht, na interpretação de Denise Fraga, confirma uma vivência do ator e diretor Emílio di Biasi, artista fundamental do teatro brasileiro. Entrevistado pelo Estado, disse qual espetáculo teatral mais o fez pensar: “Arturo Ui, de Brecht, no Berliner Ensemble, nos anos 60. Compreendi a eficácia do teatro com relações às ideias através da diversão”. 

É difícil esta travessia mencionada por Emílio que Denise faz, sob a direção de Cibele Forjaz, depois do sucesso em A Alma Boa de Setsuan, do mesmo Brecht. O desafio oferecido pelo dramaturgo é o de se captar com graça a seriedade de seus subtextos e metáforas. Brecht (1898- 1956) manejava o alemão culto e o popular, a citação erudita e a fala dialetal dos cabarés e ruas da Alemanha entre duas guerras mundiais. Em Galileu, apropria-se da história real do cientista italiano que alargou o conhecimento da astronomia para discutir, com astúcia e ceticismo, a liberdade do pensamento, ou melhor, todas as liberdades, diante dos poderes excessivos, do Estado controlador e demais forças que conduzem ao autoritarismo. 

Galileu tornou-se uma celebridade científica dada a particularidade do seu caso. Foi o pesquisador que comprovou a teoria do polonês Copérnico segundo a qual a Terra gira em torno do Sol, e não o contrário. Na atualidade, nada mais espanta quando, seguidamente, se encontra algo novo, ou incomensuravelmente velho, na imensidão do cosmos. O mais recente é o planeta descoberto por uma equipe da USP, em parceria com colegas dos EUA, da Austrália e Alemanha. 

É semelhante a Júpiter e está na órbita de uma estrela parecida com o Sol. Dias atrás, Plutão foi retratado em detalhes por uma sonda espacial. Mas Galileu (1564-1642) proclamou sua tese quando a Igreja Católica tinha poderes de fazer reis e guerras, decretar a morte de quem discordasse dos seus dogmas, um deles ser a Terra o centro do universo por vontade do Criador. A inquisição é bastante conhecida. Durou séculos e paralisou de medo o Ocidente. 

Brasileiros sofreram em suas malhas descritas, dentre muitos levantamentos, em História das Inquisições, do historiador português Francisco Bethencourt. Brecht valeu-se de Galileu para ressaltar que “a verdade é filha do tempo, e não da autoridade”. Assertiva de amplas implicações intelectuais, políticas ou cotidianas quanto ao que se deve, ou não, ceder, e qual o significado moral de um recuo. O cientista era autossuficiente nos relacionamentos com o poder e se arriscou a pensar diferente em um período sombrio. Foi preso e teve medo da dor física nas torturas ou na fogueira da Inquisição. 

O astrônomo matemático não se pretendia herói, apenas estudar e viver bem ao lado da filha. Tinha um lado esperto e incoerente que o torna mais humano, próximo de nós, simpático. É nessa faixa entre o perigo e o riso grotesco que Brecht se insere. Ele mesmo tinha seu lado Galileu. O escritor atento à exploração do homem pelo homem, não quis ver ou denunciar abertamente o stalinismo que o cercava na Alemanha Oriental pós-guerra. Fica a obra e a dúvida se o grande autor teatral seria mais corajoso, ou conivente, do que Galileu. 

Seu humor tem nuances e manhas verbais. É mesmo desafiador conciliar seriedade e diversão. A diretora Cibele Forjaz acerta na figura de Galileu com Denise Fraga, atriz excepcional que não se apoia só no carisma e na facilidade para a comédia. Em outros momentos, a diretora paga tributo ou se deixa levar pela estética carnavalesca absorvida no aprendizado que a projetou como respeitada criadora. Talvez o menos fosse o mais. Como seria igualmente mais convincente e necessariamente inquietante um inquisidor sem o rosto pintado, recurso difícil de se entender mesmcom o experiente Ary França (como o de pintar o papa com tinta branca). 

O realismo, frequentemente desdenhado, favorece as interpretações de Silvio Restiffe, Rodrigo Pandolfo, Luís Mármora, Vanderlei Bernardino (prejudicados no programa por uma relação de nomes sem os papéis correspondentes). Não há muito espaço para as mulheres no enredo. Lúcia Romano, Maristela Chelala e Jackie Obrigon (esta com tipos mais atraentes) sabem valorizar a parte que lhes cabe.

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