Arnaldo Pereira
Arnaldo Pereira

Peça expõe a dor pelos pais sumidos na ditadura

Em 'Vox', mulher recebe um estranho telefonema que a faz retornar ao passado mais violento e recente do Brasil

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2017 | 06h00

Em tempos de internet, no qual as notícias estão precocemente causando desastres mais por conta de seu efeito viral, receber uma ligação pode não ter o mesmo resultado, a não ser que o conteúdo da mensagem seja realmente devastador. É no ano de 1997, ou seja, antes do projeto da web mundial se alastrar, que a filha de pais desaparecidos recebe uma informação que muda tudo. Em Vox, espetáculo dirigido por Hélio Cícero, em cartaz no Teatro Augusta, a notícia que trará algum alívio vai se transformar no início de uma investigação sobre o passado obscuro e recente do Brasil. “Trata-se de um tema cuidadoso, sobre um assunto que completou meio século mas que muita gente deseja que os fantasmas voltem a dominar”, conta Cícero.

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Com dramaturgia de Beatriz Carolina Gonçalves, a peça entrega a história de Mariana (Luíza Curvo), uma mulher que sofreu um trauma e passa a ter amnésia. É ela que atende o telefone e descobre que o pai, outrora desaparecido político na ditadura militar, acabara de falecer. “Os pais dela sumiram há 20 anos. A peça foca nas 24 horas seguintes à ligação, com o reconhecimento do corpo e o enterro”, explica a dramaturga. Afetada, Mariana vai em busca da irmã Martha para comunicá-la. “Com o sumiço dos pais, Martha, mais experiente, teve que cuidar de sua irmã”, conta a atriz Fernanda Viacava que interpreta a irmã mais velha. “Com essa dor que nunca foi resolvida, as duas tiveram que seguir em frente e tentar levar suas vidas.”

Diante de um choque de memória, a peça ancora essa busca na confusão de sentimentos e das marcas deixadas pelos atos de repressão praticados contra as últimas integrantes dessa família. “Isso é só parte do relato de muitos brasileiros que perderam parentes e amigos nesse período tão difícil da nossa história”, conta Cícero. Para o diretor, a onda de movimentos que pedem a volta do regime militar sugere certo desconhecimento da história política e social brasileira e da compreensão das cicatrizes que a ditadura deixou no País. “Hoje a violência está tão absorvida na sociedade que muita gente não percebe como isso foi construído entre nós e de como essa brutalidade se alastra, tanto pelas instituições quanto pelas pessoas. Não se trata apenas de violência física, mas o horror que essas irmãs sofreram durante esses anos todos.” Para a autora, a peça surge e se reúne junto às recentes manchetes de cancelamentos de exposições e espetáculos, como ocorreu com o cancelamento da mostra Queer Museu, no Rio Grande do Sul, da peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha dos Céus, interpretado pela atriz trans Renata Carvalho, que foi impedida de se apresentar em Jundiaí, ou mesmo da polêmica criada em torno da performance La Bête, de Wagner Schwartz, no Museu de Arte Moderna (MAM), e acusada de pedofilia. “Estamos vendo a censura voltar e impedir que trabalhos artísticos sejam apresentados. Esse movimento conservador, que impede o debate de ideias, representa a base de todo regime autoritário.”

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De posse de novas informações, as irmãs da peça empreendem uma busca, ao lado do marido de Martha (Fernando Trauer) em direção ao subterrâneo da tortura - o que vem a calhar no espaço-porão em que Vox é encenada. “A peça nos leva para um local no qual figuras do passado ainda habitam”, conta Fernanda. “Por outro lado, o drama também provoca uma reviravolta na vida das irmãs, que nunca se identificaram com o ativismo político ou foram filiadas a partidos. Desde sempre, elas precisaram entender porque aquilo ocorreu com a família delas.” A atriz acrescenta que a peça significa um embate das personagens com elas mesmas e o ideal de família. “Elas não sabem o que fazer diante da verdade de que seus pais as deixaram por uma ideologia e de que talvez isso não tenha servido de nada para salvar o tempo presente. Pelo contrário, ficou sem resolução”, afirma a atriz. 

Ao passar pela dificuldade de reavivar as próprias memórias, Martha tem um encontro final com um sujeito que vai concretizar a repressão no palco. “Ela acaba localizando um homem que poderia ter conhecido seu pai”, diz Beatriz. “E é certo de que ela vai se deparar com o próprio agente que torturou pessoalmente o morto.” O homem velho e debochado, interpretado por Cícero, está no fim da vida e sofre com a senilidade. “Eles terão dificuldade de reviver os fatos, já que Martha não consegue lembrar-se do passado e o homem confunde-se com o tempo presente.” Para o diretor, o torturador traz em seu perfil o destino de uma vida impune, muito comum no Brasil. “É um personagem que confirma a banalidade do mal. Ele já causou os danos que poderia e não tem mais nada a perder.”

 

Na cena, a dramaturga lembra que imagens feitas pelo cineasta Cristiano Burlan - que está com o filme Antes do Fim na 41 ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo - povoam o palco na luta por resgatar a dor e passá-la a limpo. “São registros reais de manifestações e protestos nos quais as pessoas saíram para reivindicar direitos e pelo fim da arbitrariedade no Brasil”, pontua Beatriz.

VOX

Teatro Augusta. Rua Augusta, 943. Tel.: 3151-4141. 4ª, 5ª, 21h, 6ª, 21h30. R$ 40 / R$ 20. Até 15/12.

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