Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Peça ‘Distopia Brasil’ retrata culto político que pune os divergentes

Dirigido por Pedro Granato, espetáculo do Núcleo do Pequeno Ato está em cartaz no Centro Cultural São Paulo

Leandro Nunes, O Estado de S. Paulo

01 de abril de 2019 | 03h00

O fascínio pelo universo distópico na literatura e no cinema ganha, todos os dias, motivos para continuar a existir. Ao inspirar-se em Stalin, George Orwell retratou em 1984 um mundo tão controlado quanto o sucesso mais recente de The Handmaid’s Tale, de Margaret Atwood. No Enem do ano passado, as eleições presidenciais levantaram o debate entre os estudantes sobre um estado totalitário, pautado por essas produções. 

Em cartaz no Centro Cultural São Paulo, Distopia Brasil, do Núcleo do Pequeno Ato, cria um espetáculo imersivo inspirado nessas e em outras obras inesgotáveis do gênero na literatura, no cinema e em séries.

Ao chegar ao porão do CCSP, a plateia deve se preparar para adentrar um outro ambiente. Do lado de dentro, as luzes frias conduzem a um caminho em que o controle das populações é tão importante quanto a vigilância de seus pensamentos. Na história, o país instaurou uma Quarentena, um novo governo assume, com clara vocação religiosa e paixão pelas armas. 

Para o diretor Pedro Granato, tais cenas já podiam ser vistas pela televisão, durante a intervenção federal no Rio de Janeiro, em 2018, mesma época em que a peça era criada. “Para quem vive em São Paulo, tínhamos uma ideia da atuação da polícia no Rio. Mas a intervenção muda esse quadro, com a presença dos militares nas ruas. A eleição de um candidato ligado à Igreja, também reforça essa ligação da religião com a política.” 

A presença da plateia tem importância primordial na montagem. Durante o ensaio, acompanhado pela reportagem, a ideia de público ganha outros contornos, em Distopia Brasil. Os jovens atores representam integrantes desse sistema nada diferente de uma bancada política que domina os púlpitos, o gado e a segurança. É lá que será testada a fidelidade aos ideias da Quarentena, que preza pela pureza moral e sexual. Alguns poderão falhar e serão punidos. Outros serão honrados em casos como um ex-gay que se casa com uma mulher e um homem negro que refuta a exploração racial sofrida “por seus ancestrais”. “Nesse ambiente questões como o racismo, a homofobia e a violência ganham um olhar do absurdo extremo”, afirma Granato.

O formato imersivo corresponde ao desejo de que o público experimente uma vivência mais ativa em espetáculo teatral. “Apenas assistir à história não basta. O assunto é importante e a plateia é reconhecida como parte integrante no debate e nas sensações compartilhadas”, diz o diretor. 

Distopia Brasil faz parte de uma trilogia, com Fortes Batidas, ambientado em uma balada, e 11 Selvagens, que debate os ânimos inflamados na política recente brasileira. Os dois espetáculos estão fazendo uma temporada atrás da outra, em São Paulo e no interior, e reúnem um recorte singular na produção teatral paulista: peças profissionais feitas por jovens e para eles. “Temos um público na cidade que consome todas essas obras distópicas”, aponta Granato. “Eles estão nos cinemas, nas livrarias, nas feiras de quadrinhos, games, e queremos que eles também estejam aqui no teatro.” 

DISTOPIA BRASIL 

Centro Cultural São Paulo. Rua Vergueiro, 1.000. Tel. 3397-4002. 6ª, sáb., 21h, dom., 20h. Grátis. 

Até 21/4

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