FLAVIO TOLEZANI/DIVULGAÇÃO
FLAVIO TOLEZANI/DIVULGAÇÃO

Peça de teatro físico mostra comemoração cheia de angústia

No solo 'Festa', Natalia Gonsales vive uma mulher que questiona sua vida ao completar 30 anos

Murilo Bomfim, O Estado de S. Paulo

17 de abril de 2015 | 03h00

Há cerca de dois anos, a atriz Natalia Gonsales se envolveu em um projeto teatral. Na ocasião, tinha 28 anos e trabalhou com gente muito mais jovem do que ela. De forma inconsciente, a experiência mexeu com sua cabeça. “Quando se está perto dos 30, é o momento em que pensamos sobre nossas conquistas e nos preocupamos com o envelhecimento”, afirma a atriz, lembrando, com simpatia, que até o diretor Antunes Filho a chamava de velha nos tempos em que foi aluna do Centro de Pesquisa Teatral.

Gestada naquela época em que Natalia – agora balzaquiana – percebia a chegada dos 30, Festa ganha vida neste sábado, com estreia no CCBB, em São Paulo.

A montagem nasceu como apenas uma cena na cabeça de Natalia. No palco, ela viveria uma mulher que esperava os convidados em uma festa de aniversário, mas ninguém apareceria. No fim, a personagem abriria uma geladeira e, de lá, sairia um homem. “Tenho uma relação muito forte com o livro Mulheres que Correm com os Lobos (de Clarissa Pinkola Estés, editora Rocco), que fala sobre a mulher contemporânea”, diz. “Queria falar sobre essa mulher que tem um lado mais masculino de precisar sair, ir para a rua, sobreviver.”

Chamada às pressas para cobrir um furo de agenda no CCBB, Natalia teve apenas seis semanas para preparar a montagem e, por isso, teve de fazer algumas mudanças.

Depois de pronto, o espetáculo continua com a mesma premissa, mas ganhou outras nuances com a direção de Lana Sultani. “A personagem tem uma relação com o tempo, não quer que ele passe”, diz Natalia, afirmando que Festa também fala do desconforto da solidão e de como é necessário saber lidar com ela.

Dessa forma, o figurino tem tons escuros, assim como o cenário que, com poucos objetos, transmite um ambiente de depressão. No enredo, a protagonista prepara a festa e espera, sem sucesso, os convidados, sempre em um clima de inquietação e agonia.

A atriz tem a carreira marcada pelos anos em que trabalhou na companhia Pia Fraus, da qual saiu recentemente. De lá, ela tira a técnica do teatro físico, linguagem que se destaca no espetáculo. Com isso, os movimentos executados por Natalia no palco ficam mais marcados e coreografados, aproximando o espetáculo de uma performance. Com pouco texto, são as ações cotidianas – como acender uma vela ou estourar um balão – que ganham força dramatúrgica.

Para a atriz, o que mais a atrai no teatro físico é a abertura que a técnica oferece ao público. “O fato de a peça ser muito imagética faz com que a plateia faça suas próprias leituras sobre o enredo, sobre as cenas”, diz, valorizando também a palavra. “Na Pia Fraus, aprendi a importância de como dizer o texto. Por isso, busco trabalhar com a palavra e a imagem. No teatro, tudo é expressão.”

A diretora Lana concorda. “Fizemos tudo pensando em colocar o mínimo necessário para criar uma expressão, sem ser impositivo.” Para ela, o teatro tem uma tendência maniqueísta: procura-se sempre julgar, identificar o bem e o mal, o moral e o imoral. “Queremos que cada espectador construa sua própria visão do espetáculo.” 

FESTA

Rua Álvares Penteado, 112, metrô Sé, 3113-3651. 6ª, sáb. e 2ª, 20 h; dom., 19 h. R$ 10. Até 2/5. Estreia neste sábado.

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