Pedro Bonacina
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Peça de Nelson Baskerville leva discussão sobre bissexualidade ao ringue

‘Cock’ põe personagens em ‘luta’, até com juiz, para solucionar impasse amoroso

Dirceu Alves Jr., Especial para o Estadão

17 de dezembro de 2021 | 05h00

Desde que despontou como diretor, na metade da década de 2000, o ator Nelson Baskerville, de 60 anos, concebeu montagens em que os aparatos cênicos saltavam aos olhos do espectador de forma tão viva quanto a dramaturgia. Com o espetáculo Cock, escrito pelo inglês Mike Bartlett, em cartaz na Oficina Cultural Oswald de Andrade, com sessões gratuitas nesta sexta, 20h, e sábado, 15h e 18h, o encenador contraria a própria assinatura em uma guinada minimalista.

A peça é ambientada em uma arena, um quadrado de 3 metros por 3 metros, representando um ringue, que pode ser associado às lutas de boxe ou às brigas de galo, conforme recomenda o autor nas rubricas do original. Neste espaço, os quatro personagens (interpretados por Daniel Tavares, Andrea Dupré, Marco Antônio Pâmio e Hugo Coelho) se tocam, se batem, interagem o tempo inteiro. “Existe até uma brincadeira deles que nem parece uma peça minha, virou a nossa piada nos bastidores”, comenta o diretor.


É lógico que Baskerville se considerava pronto para subverter as sugestões de Bartlett e peitar a sua própria concepção cênica. O freio na criativa ou, melhor, a mudança de mentalidade se deve, porém, a um fator imponderável: a pandemia do coronavírus. Cock foi um dos tantos projetos engavetados pela crise sanitária. “O tempo parado me deu propriedade e enxerguei que o olhar do diretor deveria realmente se voltar para a dramaturgia e para o intérprete, qualquer interferência a mais da minha parte soaria excessiva”, disse.

Em Cock, a provocação se dá através de um tema ainda original no teatro, a bissexualidade. John (Tavares) vive há sete anos um casamento estável com outro homem (Pâmio). Em meio a uma crise, ele experimenta a sensação inédita de se apaixonar por uma mulher (Andrea). Não são poucas as angústias sentidas pelo personagem diante da possibilidade desta relação. 

Um quarto personagem (Coelho) entra na trama como uma espécie de árbitro – não à toa todos aparecem em um ringue – na tentativa de solucionar o impasse de John.

Para o diretor, Bartlett coloca o afeto como a discussão central. “A sociedade atravessa um caminho sem volta para o entendimento da questão de gênero e, através do afeto, será consolidada a grande revolução dos novos tempos porque não haverá mais espaço para rejeição”, diz. “Essa peça tem o poder de mexer com as pessoas e a discussão ganha novos significados porque, em razão da pandemia, perdemos o direito ao contato físico e, agora, quase podemos tocar os atores de tão próximos que eles estão.” 

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