Peça de Neil LaBute tem como pano de fundo o 11 de Setembro

Espetáculo externa o amor em tempos trágicos

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

09 de dezembro de 2015 | 19h51

RIO - Doze de setembro de 2001. Um dia depois do ataque terrorista a Nova York, um casal de amantes, Ben e Abby, discute dolorosamente a relação, tendo como cenário um apartamento com vista para as torres do World Trade Center. Cobertos pela poeira da destruição que entrou pela janela, e ao som do pronunciamento de George Bush exibido na TV, eles decidem que rumo o relacionamento irá tomar, uma vez que Ben e Abby trabalhavam num dos prédios postos abaixo no dia anterior, e ele cogita simular a própria morte para escapar de seu casamento e assumir o namoro até então clandestino. A violência do assassinato de mais de duas mil pessoas não faz com que o debate se dissipe; ao mesmo tempo, muda tudo.

É opressor o ambiente de Marco Zero, texto do dramaturgo norte-americano Neil LaBute encenado pela primeira vez no Brasil, em cartaz até o dia 20 no teatro da Caixa Cultural, no Rio. A estreia se deu passadas duas semanas de outra investida de terroristas, desta vez a Paris. LaBute, que levou a peça à Off-Broadway em dezembro de 2002, época em que o trauma deixado pelo 11 de Setembro ainda inibia o teatro e o cinema de seu país, encara a arte como um meio de ajudar a curar as feridas abertas pela barbárie – e acredita que a recuperação de ânimo vivida em Nova York nos últimos 14 anos vá se repetir na capital francesa.

“A arte pode ser usada para muitas coisas, e certamente o luto é uma delas. Acho que o papel dos artistas é desafiar o que aconteceu, ficar de pé, ser ouvido e transformar esses eventos e emoções em algo que qualquer um pode entender”, disse o autor, em entrevista ao Estado, por e-mail. “Não quero ser uma pessoa medrosa, muito menos um artista medroso. Quero que minhas palavras reanimem as pessoas ao meu redor, e essa oportunidade é rara. Agora é uma época em que isso poderá acontecer mais frequentemente, e espero que eu reaja com força, não com covardia.”

Sob a direção de Ivan Sugahara, o ator Tárik Puggina vive Ben e Letícia Isnard, de volta ao palco 11 meses depois de ter a filha Teresa, é Abby. Ben acha que os atentados podem ser “um bilhete de loteria” para o casal. Abby cobra dele uma posição mais firme, quer que o amante atenda o celular, que não para de tocar, e se posicione diante da mulher e dos filhos. A discussão avança, Abby bebe, se enche de remédios, vai se anestesiando como pode. “Eles são amorais, individualistas, estão comendo e bebendo e seguindo a vida. É como a gente, que continuou vivendo mesmo depois das tragédias em Mariana (MG) ou em Paris”, diz Puggina, que foi quem comprou os direitos de LaBute.

“É um embate de desejos”, aponta Letícia, que, com a equipe, ficou tocada com a coincidência da estreia e dos ataques na França. “Pensávamos: por que em 2015, no Rio, estamos falando do que aconteceu em Nova York em 2001? Aí veio Paris. No texto, vemos uma camada do banal dentro de uma situação de caos, como se esse acontecimento deixasse tudo em suspenso, colocasse em xeque as regras sociais. A discussão é visceral, o casal vai quase virando um animal. É o fim do mundo, como reagir?” Na construção dessa dramaturgia, foi importante não julgar os sentimentos que os movem, ressalta Sugahara. “Cada um lida com a tragédia à sua maneira, não se pode tachar o Ben de covarde.”

O “marco zero” (Ground Zero) geográfico de Manhattan é também o momento-limite da relação dos dois. Uma das primeiras respostas artísticas ao 11 de Setembro, um sucesso de público e crítica já levado a palcos de Londres e de Lima, a peça começou a surgir quando LaBute sentiu o inconveniente dos atentados para sua própria vida: naquele dia de 2001, ele estava em Chicago e, com os aeroportos fechados, teve de enfrentar uma viagem de trem de 21 horas para chegar de volta a NY.

Ele considera que até hoje o tema é tratado com muita solenidade nos Estados Unidos. “Levando em conta o fato de esse enorme acontecimento ter se dado numa cidade povoada de artistas, a resposta que demos por meio de filmes e peças e literatura e música tem sido relativamente pequena. Tenho sentido uma relutância dos artistas nisso”, escreveu LaBute. “Minha peça estava no palco um ano depois de 11 de Setembro. Fui acusado de estar me aproveitando para ganhar dinheiro com a morte dos outros. Escrevi uma história sobre um relacionamento em crise durante eventos catastróficos, e não a história daquela catástrofe.”

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