LENISE PINHEIRO/DIVULGAÇÃO
LENISE PINHEIRO/DIVULGAÇÃO

Peça de Ingmar Bergman ‘Depois do Ensaio’ estreia em São Paulo

'Depois do Ensaio' traz evidentes aspectos autobiográficos

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

14 de agosto de 2015 | 04h00

Após encerrar as filmagens de Fanny e Alexander (1982) e de ter anunciado sua despedida do cinema, Ingmar Bergman (1918-2007) confidenciou ainda que apenas o palco o satisfazia. “Acredito que o teatro é a linguagem, a capacidade da palavra para se fazer corpo e imaginação ao mesmo tempo”, disse ele em 1990, quando acreditava que fazer cinema exigia muita força, musculatura que pensava já não mais dispor. Mesmo assim, ele continuou filmando, entre os longas, Depois do Ensaio (1984), rodado para a televisão e baseado em um texto dramatúrgico de sua autoria. Peça que estreia neste sábado, 15, em São Paulo, no Teatro Eva Herz, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional.

Depois do Ensaio traz evidentes aspectos autobiográficos – no livro que escreveu sobre sua vida e obra, Lanterna Mágica, Bergman apresenta, no início do quarto capítulo, dois testemunhos que, no palco, se transformaram nos monólogos iniciais do protagonista da peça, o diretor Henrik Vogler (Leopoldo Pacheco).

Experiente, perfeccionista, ele ensaia a peça O Sonho, de August Strindberg (1849-1912), justamente o dramaturgo mais citado pelo cineasta em seu trabalho. Depois de um tarde de ensaio, Vogler encontra-se sozinho no palco quando surge Anna (Sophia Reis), com a desculpa de procurar uma pulseira perdida. Mas, o que seria uma conversa casual, transforma-se em encontro catártico, com revelação de dores pessoais.

Até que, em um devaneio puramente teatral, enquanto conversa com Anna, Vogler reencontra também Raquel (Malu Bierrenbach), também atriz, mãe de Anna e que, tal qual o pai de Hamlet (outra referência constante de Bergman), volta do mundo dos mortos. Emoções esquecidas revivem, cobranças retornam, sentimentos sedimentados ganham nova ebulição. 

“Depois do Ensaio tem muito a ver com minha atitude, minha relação com a arte teatral, com este ofício bagunçado, sombrio e cruel”, explicou o próprio Bergman. “Enquanto eu escrevia, devo ter atingido um nervo ferido ou, se quiser, um veio subterrâneo de água. Do meu inconsciente, surgiram estranhos cipós retorcidos e ervas daninhas; tudo se transformou no mingau de uma bruxa. De repente, surge a amante do diretor, que é a mãe da jovem atriz. Ela morreu há anos, e ainda assim entra no jogo. No palco escuro, vazio do teatro, durante a hora tranquila, entre quatro e cinco da tarde, muito pode voltar para assombrá-lo. O resultado desta mistura é uma obra de televisão dramática que trata da vida no teatro”, completa.

Na montagem dirigida por Mônica Guimarães, o cenário de Marco Lima mostra as entranhas do teatro, com suas cordas misteriosas que abrigam fantasmas e toda a história vivida naquele espaço. “O escuro nesse espetáculo é determinante, pois as sombras encobrem segredos”, comenta Mônica.

“Bergman escreveu um texto sobre o artista, especialmente aqueles que conviveram durante anos ao seu lado”, completa Leopoldo Pacheco. “Aqui, o ator em suas várias dimensões é o protagonista.”

De fato, as obsessões que o cineasta sempre cultivou na dramaturgia pontuam o texto, traduzido com eficiência por Amir Labaki e Humberto Saccomandi. “A palavra dita o ritmo das intenções de cada personagem”, observa Sophia Reis. “E isso é particularmente interessante, pois nós, artistas latinos, temos uma forma diferente, mais quente, de proferir as frases que os suecos”, acrescenta Pacheco, cuja atuação, ao lado das atrizes, ganha importância com a música original de Marcelo Pellegrini.

Daí a importância da presença de O Sonho, de Strindberg, peça que o próprio Bergman montou cinco vezes. “Não gosto de fazer comparações, mas Strindberg era meu Deus, e sua vitalidade, sua raiva, eu as sentia dentro de mim”, disse o diretor em conversa com o cineasta francês Olivier Assayas e o crítico sueco Stig Björkman, em 1990. 

DEPOIS DO ENSAIO

Teatro Eva Herz. Av. Paulista, 2.073, Conjunto Nacional, 3170-4059. 

6ª e sáb., 21h; dom,. 19h. R$ 60. 

Até 27/9. Estreia 15/8

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