Marcelo Moraes
Marcelo Moraes

Peça cômica ‘Reunião de Condomínio’ aborda a atual polarização por meio de moradores de um edifício

Atração online mostra os bastidores do Edifício Bandeirantes, construído para famílias de classe média alta, que, com o passar dos anos, sentiram o bolso esvaziar e seus valores morais se tornarem ultrapassados

Dirceu Alves Jr., Especial para o Estadão

21 de julho de 2021 | 05h00

O dramaturgo paulistano Franz Keppler vinha de peças densas, como Camille e Rodin e Córtex, quando estreou Divórcio em 2013. A divertida comédia, dirigida por Otávio Martins, trazia um ex-casal de advogados que se reencontra na justiça, em lados opostos, para defender um jogador de futebol e uma modelo em separação litigiosa. O sucesso de um ano e meio em cartaz, porém, não entusiasmou o autor a ponto de se dedicar de imediato a outras investidas cômicas. “Como espectador e autor, confesso que gosto mais do drama, sou da sofrência, mas, agora, entendi que atravessamos um momento em que é preciso dar risadas, buscar um pouco de diversão e não se culpar por isso”, afirma. 



A descontração proposta por Keppler nesta fase do País dominada por pandemia, caos político e suspeitas de corrupção é Reunião de Condomínio, Uma Assembleia Cômico Extraordinária, que estreia na sexta, dia 23, no site Eventim. Sob a direção de Daniel Warren, a peça tem ingressos que variam entre R$ 25 e R$ 60. A diferença para a maioria das atrações online é que o espectador compra o ticket e fica livre para vê-la entre 23 de julho e 23 de agosto, no dia e horário em que escolher. Os atores Andrea Dupré, Daniel Tavares, Ed Moraes, Nilton Bicudo, Patricia Gasppar e Rafael Primot formam o elenco, que tem a missão de segurar o timing cômico em uma peça pré-gravada.

Tanto Keppler como Warren concordam que esse é um desafio - e talvez explique a escassa oferta de comédias no formato digital. “O ator cômico precisa da reação imediata da plateia para estabelecer o jogo e a ausência de público pode gerar uma inibição”, comenta Keppler. Daniel Warren reconhece a preocupação, mas, como diretor, garante que, desde o primeiro ensaio, via Zoom, percebeu uma enorme disposição de troca entre o elenco e as boas tiradas do texto. “A afinidade entre os atores me deixou à vontade e partimos de uma situação que já tem uma comicidade pronta. Assembleias de condomínio juntam pessoas por obrigação, que estão ali sem a menor vontade de interagir e podem explodir diante da discordância mais banal”, explica Warren.

Reunião de Condomínio, Uma Assembleia Cômico Extraordinária mostra os bastidores do Edifício Bandeirantes, construído para famílias de classe média alta, que, com o passar dos anos, sentiram o bolso esvaziar e seus valores morais se tornarem ultrapassados. A convocação para o encontro, realizado através do computador, como manda a etiqueta pandêmica, serve para tratar de um cheiro de podre que incomoda os moradores e uma infestação de cupins capaz de abalar as estruturas. Personagens à beira do ridículo são oferecidos para garantir o riso. São eles a advogada conservadora e o marido fracassado (representados por Andrea e Moraes), o solteirão que lê tarô e cuida de sete gatos (interpretado por Bicudo), a viúva (papel de Patricia) que emprestou sua barriga para a gestação do filho de seu filho (vivido por Tavares), que também mora no prédio com o marido, e, claro, o síndico corrupto e metido a coach (defendido por Primot). “Essa peça é um microcosmo da nossa realidade polarizada, em que as pequenas dificuldades de cada um viram o maior problema do mundo e, sob essa ótica, temos uma crítica social”, completa Warren. 

Franz Keppler afirma que as mazelas da sociedade sempre permeiam sua obra, mesmo em um tom tragicômico ou como pano de fundo para dramas intimistas. “O cheiro de podre e a invasão de cupins são metáforas para tudo o que acompanhamos no dia a dia da política”, diz. Com esta peça, o autor faz as pazes com o teatro, depois de um ano dedicado ao audiovisual e pouco esperançoso na retomada dos espetáculos por causa da covid-19. “Eu me perguntava o tempo inteiro ‘vou escrever para quem e para quê?’. Não tinha motivação mesmo”, assume. 

Parado, no entanto, ele não ficou. Desenvolveu uma série de televisão, Rooftop, em parceria com o ator Daniel Rocha, adaptou para o cinema sua primeira peça, Anjo da Guarda, inédita em São Paulo e encenada só em Porto Alegre, e viu textos prontos, como Caravaggio, Até Aquele Dia e Até Que a Gente Volte a se Encontrar, ganharem chances de temporadas assim que o circuito entrar em um ritmo próximo do normal. “Por um bom tempo, vamos viver esse híbrido de presencial e digital porque vai ser difícil, por exemplo, viajar com os espetáculos, então tudo o que escrevo é pensado também para audiovisual, porque precisamos encontrar maneiras de concretizar a arte”, declara Keppler, ampliando conexões com a dramaturgia.

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