Renato Mangolin
Renato Mangolin

Panorama da dramaturgia atual reforça que textos tornaram-se matéria-prima, não mais resultado

Projeto 'Dramaturgias' promove debates, oficinas feira de publicações e encontros com dramaturgos e pensadores da cena

Leandro Nunes, O Estado de S. Paulo

08 Junho 2018 | 06h00

Se na literatura o fim do livro está na última página ou no filme quando os créditos sobem enfileirados, os textos contemporâneos de teatro parecem não caber só dentro do palco. Coisa que dramaturgos de gabinete – que entregam textos com começo, meio e fim – como foram Nelson Rodrigues e Jorge Andrade, conhecidos nacionalmente, não viveram para ver. 

Essa é uma das diferenças que parecem fomentar a atual cena teatral, com o advento de escolas que “ensinam” o ofício de dramaturgo, numa onda que surgiu no início dos anos 2000, em São Paulo. Será aberto nesta sexta, 8, o projeto Dramaturgias, no Sesc Ipiranga, que pretende sondar – com programação até o fim do ano – aspectos sobre criação, a formação de autores e a publicação de seus textos. Para a atriz, arte-educadora e diretora do Célia Helena Centro de Artes e Educação Ligia Cortez, a ditadura militar afetou o ritmo de produção das artes em geral, e dos dramaturgos da época.

“Montar textos de autores internacionais era uma solução, mas, de algum jeito, eles falavam de questões mais gerais, o que não é a mesma coisa.” Repressão que, em contrapartida, parece ter revelado ao País a simpatia e o talento dos intérpretes brasileiros, já que muitos foram do teatro para a TV. “Além de Nelson, algumas dramaturgas continuaram, como Consuelo de Castro, Leilah Assumpção e Maria Adelaide Amaral. Isso levou tempo, até que novas vozes surgissem e descobrissem o que dizer e como dizer”, explica.

Se, nos anos 1980, o texto ganhou certa independência da encenação, na década seguinte, o fortalecimento dos coletivos teatrais transformariam a dramaturgia em parte de uma criação conjunta, como foi com o Teatro da Vertigem e a Cia do Latão, por exemplo. “Por haver um certo fazer artístico e uma ideologia, alguns grupos não encontravam textos prontos que dessem conta de suas questões”, explica a pesquisadora, diretora e dramaturga Silvana Garcia. Nesse espaço, as instituições de ensino passam a atuar para tentar equilibrar a lacuna deixada não só pela repressão ao oferecer formação em dramaturgia, mas também para contaminar e apontar modos de criação, que por vezes se fundem à formação de ator e diretor. “As peças se tornam escrituras cênicas, que nascem de ensaios e do trabalho no palco, e depois são copiados. Tentar diagramar o palco a serviço do texto deixa de ser uma prioridade”, afirma.

Essa metamorfose da dramaturgia ganha ainda mais força e alcance nos livros, com editoras investindo no lançamento de títulos. Entre sexta, 8, e domingo, 10, mais de 30 editoras, entre elas a Giostri, Javali e Patuá, vão integrar uma feira de publicações independentes, com mais de 80 autores de várias regiões do País. A editora Isabel Diegues conta que cerca de 15% a 20% dos títulos lançados pela Editora Cobogó no ano são de textos teatrais contemporâneos. Ela também é curadora da feira de publicações. “Hoje existe uma pluralidade, desde narrativas mais convencionais, até formatos mais transgressores.” 

Diferentemente de outros gêneros, a diversidade formal e temática produzida – de questões LGBT e indígenas, ao feminismo e racismo – acaba exigindo projetos únicos. “A publicação precisa se adaptar, não o contrário, levando em conta que aquele texto já sofreu tantas intervenções da direção e da cena.” Além dos leitores que desejam adquirir o registro da peça, há casos de publicações da Cobogó já exigidas em vestibulares no Rio. Ela conta que a natureza desses textos permite o contato por várias frentes. “Pela estrutura, é possível ler as peças na sala de aula, em conjunto. De qualquer maneira, no Brasil lê-se pouco, ainda mais peças de teatro. É preciso reinventar o hábito de ler.” 

Destaques

Feira de publicações

Entre 8/6 e 10/6, mais de 30 editores reúnem obras de 80 dramaturgos brasileiros

Teatro de Arena

De 18/8 a 16/9 Cecília Boal realiza leituras dramáticas das peças ‘Chapetuba Futebol Clube’, de Vianinha, ‘Revolução na América do Sul’, de Augusto Boal e ‘Eles Não Usam Tlack-tie’, de Gianfrancesco Guarnieri

As Palavras e As Coisas

Texto e direção de Pedro Brício, a peça (foto) reúne amigos numa trama de vida, morte e literatura, nos dias 28 e 29/7

Para Crianças

Leitura cênica de textos teatrais para crianças organizada por Paulo Rogério Lopes, Ana Roxo e Marcelo Romagnoli de 6/10 a 27/10

DRAMATURGIAS. Sesc Ipiranga. R. Bom Pastor, 822. Tel.: 3340-2000. De 8/6 a dezembro. Mais informações em www.sescipiranga.sescsp.org.br

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Nelson Rodrigues Consuelo de Castro

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