Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

'Pacto' traz os jovens que, inspirados em Nietzsche, mataram por se acharem superiores

Elenco conta com Leandro Luna e André Loddi

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

03 Julho 2018 | 06h00

Durante muito tempo, foi chamado de crime do século - em maio de 1924, dois jovens amigos, Nathan Leopold Jr., então com 19 anos, e Richard Loeb, 18, sequestraram e assassinaram Bobby Franks, um garoto de apenas 14 anos. Ainda que eles pedissem resgate, o motivo não era financeiro, pois Leopold e Loeb eram membros de famílias abastadas de Chicago. O que tornou o crime mais sórdido foi sua motivação: adoradores do filósofo alemão Friedrich Nietzsche e sua teoria sobre o super-homem, eles se julgavam seres superiores, portanto, com qualidades que os deixavam isentos das leis comuns que regem os homens. “Algo terrível, que ainda choca”, conta André Loddi que, ao lado de Leandro Luna, protagoniza o musical Pacto, que estreia dia 11 de julho, no Teatro Porto Seguro.

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Trata-se da versão nacional de Thrill Me - The Leopold and Loeb Story, espetáculo escrito e musicado por Stephen Dolginoff e que estreou no circuito off Broadway em 2005. Fanático por histórias policiais que de fato aconteceram, ele desejava escrever um musical mais intimista sobre um intenso relacionamento quando percebeu que a história de Leopold e Loeb caía como uma luva. Afinal, eram dois meninos ricos que, ao longo da vida, não receberam a devida atenção dos pais (Leopold chegou a ser abusado por sua babá). O resultado foram dois sujeitos inteligentes, mas com a alma danificada. Cúmplices em todos seus atos, mantiveram uma tortuosa relação homossexual.

“Leopold era retraído e aparentemente refém da atração que sentia por Loeb, o que o obrigava a participar de todos atos de maldade, mesmo não concordando”, conta Luna, que vive o rapaz submisso. “Já Loeb era expansivo, egocêntrico, popular, confiante e hábil em usar o sexo como chantagem”, completa Loddi, que foi quem teve o primeiro contato com o texto - há 4 anos, ele participou de uma montagem modesta no Rio de Janeiro. “Não repercutiu, mas não me esqueci da força do texto.”

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Assim, quando encontrou Luna em uma festa e foi questionado por ele sobre um projeto que poderiam tocar juntos, Loddi imediatamente se lembrou de Pacto. “Decidimos esquecer aquela primeira versão e cuidamos de fazer a nossa própria tradução”, comenta Luna. Uma medida acertada, pois permitiu que ambos se aprofundassem no texto e, melhor, conhecessem intimamente as intenções de personagens sinistros, mas profundamente humanos.

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De fato, a química em cena revelou-se essencial - no ensaio acompanhado pelo Estado, é possível notar a presença de personalidades distintas, mas complementares e interdependentes. Individualmente, eles não passavam de universitários desajustados. Juntos, Leopold e Loeb formaram uma espécie de yin e yang do mal, capazes de planejar e executar um assassinato simplesmente para a própria diversão.

Como se tratava de um musical intimista, Luna e Loddi convidaram um diretor experiente no formato. Afinal, Zé Henrique de Paula foi o encenador de Urinal, um dos mais premiados espetáculos do gênero dos últimos anos, e O Senhor das Moscas, inquietante trama que mostra o paralelo existente entre se tornar adulto e se tornar totalitário.

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Ainda que admire a música da peça, Zé Henrique prefere os tópicos que conversam com a realidade brasileira. “A forma como a dupla impõe seus desejos, nem que seja à custa da maldade, faz lembrar a atual polaridade de opiniões, especialmente na internet”, observa. “Se vivesse hoje, Loeb certamente seria um ‘hater’, navegando na chamada ‘deep web’, área nebulosa onde se pode até encomendar um assassinato.”

Outro tema da peça que guarda contato com a atualidade é a importância do Judiciário. “Os juízes, especialmente hoje, ganharam uma importância extraordinária”, diz. De fato, Pacto começa em 1958, quando um já debilitado Leopold passa pelo quinto interrogatório desde 1924, quando ele e Loeb foram trancafiados. Se o antigo amante morreu na prisão, assassinado por outro presidiário que não correspondeu ao seu impulso homossexual, Leopold finalmente consegue a liberdade. Na conversa, ele reconta como seus óculos, encontrados no local do crime, incriminaram a dupla. E fica a dúvida: teriam os óculos caído involuntariamente ou Leopold, em busca da cela onde teria seu amor à disposição, os teria deixado cair propositalmente?

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Como surgiu a ideia de Pacto?

Eu tinha duas ideias distintas. A primeira era criar um musical baseado em um crime de verdade. A segunda era escrever sobre um relacionamento estranho entre duas pessoas. Acabei concebendo a história de Leopold & Loeb e vi que ela comportava exatamente essas duas ideias.

Acredito que um dos únicos momentos de humor na história é quando Loeb está cantando sobre matar seu irmão para ficar com o seu quarto. Estou certo?

Para mim, é difícil saber como tudo é traduzido. Mas, no original em inglês, há mais momentos de humor negro. Em inglês, quando Richard canta “Não existe nada como um incêndio romântico, quente” depois de colocar fogo em um prédio, normalmente provoca gargalhadas do público. Às vezes, a forte dependência de Nathan desperta risos de simpatia.

Você chegou a temer que a música talvez fosse suave demais considerando o tema da peça?

Acho que a música que compus é extremamente sombria e não a qualificaria como suave de modo nenhum. Além disso, jamais ouvi ou li sobre alguma pessoa que a tenha considerado suave. Acho que a música complementa a história muito bem e ajuda a estabelecer o ritmo da peça.

Você acredita que o fascínio ainda presente sobre o caso Leopold & Loeb se explica não pelo interesse em quem matou, mas por qual motivo?

Exatamente! É por isso que eu me concentro na história da relação entre eles e não apenas no assassinato. 

Leopold estava loucamente apaixonado, e o amor, especialmente o amor neurótico, pode nos deixar loucos. Mas o que explica Richard Loeb?

Em minha opinião, do ponto de vista psicológico, Richard era uma pessoa profundamente perturbada, dono de um imenso ego e era venerado por Nathan. Estou certo de que ele realmente acreditava naquilo que leu em Nietzsche.

PACTO

Teatro Porto Seguro. Al. Barão de Piracicaba, 740. Tel.: 3226-7300. 4ª e 5ª, 21h. R$ 40 / R$ 60. Até 30/8. Estreia 11/7

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