TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO
TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

'Ovono' cria inteligência artificial para apontar os perigos do progresso tecnológico

Espetáculo multimídia cria trama política envolvendo um osso gigante que ameaça a destruição do planeta

Leandro Nunes, O Estado de S. Paulo

05 de novembro de 2016 | 04h00

Foi nas lentes de Stanley Kubrick que um primata escancarou as portas da evolução. Ao som de Also Sprach Zarathustra, o cineasta traduz o progresso no pedaço de osso que vira ferramenta e arma nas mãos do homem primitivo de 2011: Uma Odisseia no Espaço. 

A cena emblemática do pedaço de fêmur levantado não está em Ovono. Pelo contrário, o espetáculo que estreia neste sábado, 5, aposta em uma imagem oposta: o osso lançado atravessou a atmosfera, cresceu e agora paira sobre nossas cabeças. “O progresso científico abriu muitas portas para o desenvolvimento, mas hoje já podemos perceber e sentir o ônus desse descontrole”, conta o diretor Ricardo Karman. 

Esse é o clima perfeito para a trama narrada pela Kompanhia do Centro da Terra. Cercado por uma grande estrutura inflável, o palco serve como uma nave espacial transparente ou um quartel general no qual um cientista (Gustavo Vaz) desenvolveu um poderoso computador, o Ovono. Dotado de inteligência artificial - e uma voz infantil e estridente -, o jovem sistema é pivô de um embate político que vem embalado de forma irônica nas referências do filme de Kubrick e no texto bíblico do Gênesis. “O general deseja usar o computador como uma arma de guerra, tudo o que o cientista não deseja”, conta o ator Fábio Herford, que vive o militar.

Também pudera: Ovono tem potencial para aprender idiomas e sistemas de linguagem, compreender a organização social, política e econômica de um país, e obedecer ordens. Com a vantagem de não possuir emoções e não padecer conflitos morais. O melhor é que o computador não é só ultratecnológico na peça. Para concretizar o jovem com cérebro de chip, uma equipe gastou os próprios neurônios para criar uma experiência que não fosse tão fria quanto as máquinas. “A gente queria que o Ovono não fosse só uma gravação fria, um play que você dá em um áudio”, explica o diretor. “Era importante que ele tivesse um certo calor na voz, uma vez que não se trata de qualquer máquina e de que estamos fazendo teatro.” Nas cenas, Ovono conversa com os atores, se dirige a eles e sua tela é alterada com o toque das mãos. 

A solução foi gravar as cenas dos atores interagindo com um protótipo do computador. Esse material foi enviado para o diretor de animação Amir Admoni. “Acompanhei cada minuto das cenas e sincronizei com as expressões do Ovono, além de suas reações quando ele é tocado. É como um semiplayback.” A personalidade e o temperamento do computador vieram com a voz emprestada de Paula Spinelli. “Preciso seguir as cenas com precisão, nada pode atrasar e isso exige toda a nossa atenção.” 

O espetáculo, embalado por figurinos retrô futurísticos, como em Star Wars, traz o cientista que se envolve em um acidente com o general. O próximo alvo será a presidente, já que o criador de Ovono deseja tomar o lugar da líder e instituir um governo teocrático, que freie o avanço progressista. 

E, como se não bastasse, um grande osso está a flutuar sobre o planeta forçando os países a realizar uma conferência. No encontro, as chefes de Estado (todas mulheres) demonstram que a guerra sempre esteve na vanguarda do desenvolvimento científico. Uma delas vai apresentar o projeto de uma bomba atômica portátil para salvar a Terra. O diretor ressalta que a ideia de progresso tratada na peça não diz respeito apenas a esse campo. “O Brasil se desenvolveu em muitos campos. A luta das mulheres, a igualdade de gêneros e a democracia são conquistas. Não podemos perder isso de uma hora para outra.".

OVONO

Centro Cultural Banco do Brasil. Rua Álvares Penteado, 112. Tel.: 3113-3651. Sáb., dom., 20h; 2ª, 19h. R$ 20 / R$ 10. Até 12/12. 

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