GUGA MELGAR/DIVULGAÇÃO
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‘Ou Tudo ou Nada, o Musical’ traz opção para se encarar a crise

Baseado no filme inglês 'The Full Monty', montagem também busca alternativas para sustentar músicos, técnicos e elenco de 17 atores 

Ubiratan Brasil / RIO, Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

09 Outubro 2015 | 04h00

As dificuldades econômicas que hoje deixam cicatrizes no Brasil conferiram uma inesperada atualidade ao espetáculo Ou Tudo ou Nada – O Musical, que entra em cartaz no Theatro Net, do Rio de Janeiro. Afinal, nada mais moderno que um bando de desempregados de uma indústria do ferro tentar a sorte em uma atividade incomum para conseguir um reforço ao minguado auxílio mensal do sindicato: subir em um palco para fazer strip-tease. 

“Crise econômica,  desemprego, uma discussão sobre o papel do homem e da mulher na sociedade, parece que nada mudou nos últimos 20 anos”, comenta o jornalista Artur Xexéo, autor da versão para o português do texto que estreou nos palcos americanos em 2000. A base de tudo, no entanto, é o filme inglês Ou Tudo ou Nada (The Full Monty), dirigido por Peter Cattaneo em 1997 e estrelado por Robert Carlyle e Tom Wilkinson. Um longa despretensioso, mas que, graças ao poder de sua crítica social embalada com bom humor, conquistou enorme audiência em todo o mundo.

“O que explica esse sucesso é o fato de ser uma história que não fala de tristeza, mas de esperança”, acredita Tadeu Aguiar, diretor do espetáculo baseado no original de Terrence McNally (texto) e David Yazbek (música). “Cabe a cada um superar seu momento difícil, o que serve até como lição a esse momento de crise em que hoje vivemos.”

Dificuldades de toda ordem que acompanham a produção há algum tempo. Diretor de musicais marcantes como Quase Normal, que tratou da bipolaridade, Aguiar batalhava fazia três anos para conseguir levar a trama ao palco. “Diversos patrocinadores nem se interessaram em conhecer o projeto por temerem ligar sua marca a um musical com homens pelados, o que revela um temor preconceituoso”, critica. “Montamos, então, um espetáculo adaptado à crise.”

De fato, o grupo formado por 17 atores, sete músicos e diversos técnicos aceitou trabalhar no sistema de cooperativa: os ganhos vêm da bilheteria e do pequeno investimento já conquistado – de um orçamento inicial de R$ 3,5 milhões, a produção conseguiu arrecadar até agora R$ 500 mil. “Trabalhamos graças à grande disposição de cada um em acreditar no projeto”, assegura o produtor Eduardo Bakr. “Eu me desdobrei, pois tanto fiz bolo para vender como trabalhei de motorista para nosso diretor musical Miguel Briamonte”, diverte-se Tadeu, sem esconder, no entanto, um tom mais sério.

O strip-tease fica por conta dos seis protagonistas – Ou Tudo ou Nada conta a história de sujeitos comuns que, demitidos há um certo tempo, decidem arriscar uma exposição completa no palco em troca de uma boa quantia. A ideia surge quando Jerry Lukowski (Mouhamed Harfouch), cujo atraso no pagamento da pensão pode impedir que veja o filho, compartilha com seu melhor amigo, Dave Bukatinsky (Claudio Mendes), uma descoberta: se eles estão desempregados, suas mulheres, além de novas provedoras das famílias, se divertem em um espetáculo dos Chippendales, o mais famoso grupo de strippers masculinos dos EUA.

Se elas pagam para ver desconhecidos seminus, quanto não desembolsariam para ver um show deles que terminaria com todos inteiramente pelados? É tal pensamento que move o magrelo Jerry e o gorducho Dave a buscarem, por meio de uma seleção, outros desempregados a formarem um grupo de strippers mais ousados.

Surgem, então, o esquisito e solitário Malcolm (André Dias), o antigo gerente Harold (Carlos Arruza), que esconde a demissão da mulher, Noah ‘Jegue’ Simmons (Sérgio Menezes), cuja maior qualidade, logo se descobre, é a vivência na dança embora porte uma artrite avançada, e, finalmente, o jovem Ethan (Victor Maia), obcecado em dançar como Donald O’Connor em Cantando na Chuva, mas que só ganha notoriedade graças a seu imenso pênis. A trupe se completa com a pianista Jeanette (Sylvia Massari), experiente em musicais, que acompanha os ensaios.

Como acontece no filme, não há nudez frontal, mas o grupo tão heterogêneo encanta justamente pela falta de perícia em se desnudar artisticamente. “São personagens que falam da importância de se despir dos medos durante uma crise econômica, de se encher de coragem e de buscar o desejado futuro”, diz Tadeu. 

Um filme sob o signo do ‘feel good’, para se sentir bem

É curioso como determinados filmes que não nasceram com o propósito de virar musicais terminam fazendo essa passagem. Basta lembrar de Billy Elliot, de Stephen Daldry, de 2000. Logo depois de Ou Tudo ou Nada/Full Monty, de Peter Cattaneo, o filme foi recebido a pancadas por críticos que não se tocaram pela beleza, pela dor que Daldry expõe em sua narrativa.

O filme é sobre um pai grevista que abre mão das convicções e fura a greve para conseguir o dinheiro que o filho precisa para ir estudar balé. Tudo vale a pena, se a alma não é pequena. O voo do pássaro, no palco, no desfecho, é a prova.

Ou Tudo ou Nada estourou nas telas em 1997 como aquilo que se chama de ‘feel good movie’. Um filme para cima, que faz com que o público se sinta bem. Energético, como Cantando na Chuva, o clássico musical de Stanley Donen e Gene Kelly, por exemplo. Um bando de desempregados. Quer coisa mais deprimente? Quantos filmes dramáticos, sombrios se podiam fazer a partir desse ponto de partida?

Cattaneo e seu roteirista, Simon Beaufoy, usaram a história para outra coisa. Os caras compõem um grupo heterogêneo (Robert Carlyle, Tom Wilkinson etc). Idades e tipos variados. Ninguém é o que se pode chamar de ‘Apolo’. Mas eles cantam, dançam. Ganham o público e a autoestima. Virar musical foi só consequência.

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