Lina Suzimono
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'Os solidários vencerão', diz Ariane Mnouchkine, fundadora do Théâtre du Soleil

A companhia francesa Théâtre du Soleil traz ao Brasil a peça As Comadres e diretora fala sobre coletividade, uma 'forma de resistir a esse mundo que exacerba o individualismo'; As Comadres estreia no Rio

Daniel Schenker  , Especial para O Estado de S. Paulo

09 de abril de 2019 | 03h00

Numa época como a atual, em que o convívio em grupo gera crescentes atritos, Ariane Mnouchkine se mantém determinada na condução de uma companhia de grande porte como o Théâtre du Soleil. “Acho que hoje em dia é mais difícil trabalhar coletivamente. E mais útil porque é uma forma de resistir a esse mundo que exacerba o individualismo. Há manipulação para impedir sonhos, projetos. No entanto, os solidários vencerão”, observa Mnouchkine, em entrevista concedida durante o Festival de Teatro de Curitiba, onde apresentou As Comadres (Les Belles-Soeurs, no original), espetáculo em que reúne 20 atrizes, sem data marcada para desembarcar em São Paulo, mas com estreia confirmada, no Rio, para o próximo dia 11, quinta-feira, no Sesc Ginástico.

A interação conflituosa é tema de As Comadres, peça do canadense Michel Tremblay escrita em 1965 e montada pela primeira vez em 1968. Germana convida irmãs e amigas para ajudarem a colar um milhão de selos. A anfitriã se aproveita das mulheres que aparecem em sua casa para executar a tarefa, mas elas se mostram dispostas a inverter o jogo de exploração. “Germana se vale do coletivo em vantagem própria. E não se sensibiliza com o sofrimento de mulheres à sua volta”, resume Mnouchkine, que considera que o texto continua pertinente. Percebe a peça como particularmente oportuna ao Brasil. “Talvez a situação das mulheres no Brasil de agora corresponda à delas no Canadá em 1965. Também tenho a sensação de que a condição das mulheres no Brasil é pior do que na França”, compara.

Mnouchkine, porém, não perde de vista o humor que atravessa As Comadres, texto que ganhou adaptação para o musical em 2008. A encenadora assistiu à montagem de René Richard Cyr em 2012 e ficou bastante impressionada. Mesmo sendo conhecida por forte assinatura autoral, Mnouchkine decidiu levar o texto para o palco, mas permanecendo fiel à criação de Cyr, responsável ainda pelo libreto e pelas letras (a música é de Daniel Bélanger), com direção musical de Wladimir Pinheiro. Tanto que fez a supervisão artística – em vez da direção – de As Comadres. Não por acaso, o público se depara com uma encenação muito diferente das de Mnouchkine na Cartoucherie de Vincennes, espaço nos arredores de Paris onde o Théâtre du Soleil, fundado em 1964, tem sua sede desde 1970. A proporção é reduzida e não há a ritualização que costuma acompanhar os espetáculos do Soleil, a exemplo da tradição de os atores se prepararem para a cena diante dos espectadores, como pode ser conferido pela plateia brasileira nas montagens apresentadas no País, como Os Náufragos da Louca Esperança, a partir da obra de Júlio Verne.

Seu desafio em As Comadres se concentrou no trabalho com atrizes brasileiras de gerações diversas que não havia dirigido (com exceção de Juliana Carneiro da Cunha e Fabianna de Mello e Souza) – elas, inclusive, se revezam nas personagens – e no empenho em imprimir um timing preciso, fundamental na transposição para o palco dessa comédia doce-amarga de Tremblay, que entrelaça as relações coletivas com as revelações de vivências de algumas das mulheres. “Tentei seguir à risca uma direção que já estava feita – e que é formidável. Foi quase como ensaiar uma coreografia com outras atrizes. Procurei evitar que as interpretações se restringissem a imitações”, explica.

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