LENISE PINHEIRO/DIVULGAÇÃO
LENISE PINHEIRO/DIVULGAÇÃO

Os Gritos e sussuros de 'Depois do Ensaio' com Leopoldo Pacheco

Espetáculo de Mônica Guimarães comprova que Ingmar Bergman nunca é mais do mesmo

Jefferson Del Rios , ESPECIAL PARA O ESTADO

06 Setembro 2015 | 07h00

O título, Depois do Ensaio, de Ingmar Bergman, refere-se inicialmente ao trabalho de encenar uma peça. A expressão, porém, traz como segundo significado a sempre mencionada solidão do artista. Sugere o velho clichê, mas quem se manifesta é um dos grandes criadores do cinema e do teatro. Um pensador e o homem que na autobiografia e no documentário A Ilha de Bergman revela o seu lado torturado por demônios pessoais dentre eles o defeito da fúria. 

Assume ter sido um mau companheiro das lindas e talentosas mulheres com as quais se casou, ter sido um pai criticável e que, no entanto, trouxe para as telas este tumulto existencial transfigurado em arte e filosofia.

A peça poderia ser mais um caso de amores mal resolvidos, o de sempre, mas em Bergman nada é o de sempre. Aqui está alguém cansado da maestria e dos problemas do seu temperamento. Algo começa a doer, no corpo e no espírito. 

Ao final de um ensaio, o diretor está no vazio do palco quando uma atriz, a pretexto de buscar algo, procura tirar mais do mestre. Ele só pretende meditar, esvaziar o tédio, deixar-se ficar, mas a moça quer mais.

A diferença de objetivos e de gerações, ou ambas as coisas, permitirá a cada um se espelhar no outro, o outono dele e a primavera dela, em meio ao cordame e móveis dos cenários e, sobretudo, ao clima de mistério do teatro. Parece novamente algo anedótico, o folclore do meio. Mas, até pelo ódio, o tablado tem força. O encenador argentino Victor Garcia (1934-1982), que fascinou o Brasil com suas montagens, dizia que “a vida não pode existir nesta caixa preta”, e chegou a pregar a demolição dos teatros convencionais. 

Mas aqui há vida no embate diretor-atriz. Um dueto de observações psicológicas, do ceticismo exausto dele às ambições e dúvidas escamoteadas ou mal percebidas dela. A dureza verbal do veterano, necessária porque libertadora, como em processos psicanalíticos, e os mecanismos auto enganadores, ou ardilosos, da iniciante, caminham em direção a alguma descoberta. Haverá uma pausa entre eles com o agressivo aparecimento da ex-amante do diretor, que Malu Bierrenbach, com tipo físico e experiência, impõe em rasgo melodramático. Ruído numa tocata em surdina que, no restante, a diretora Mônica Guimarães conduz com sutileza.

Leopoldo Pacheco tem domínio cênico comprovado para a impaciência criativa e angustiada do profissional cético. Curiosamente, é um ator naturalmente simpático, longe do aspecto alquebrado e olhar soturno de Erland Josephson do filme de Bergman. Comparações, aliás, não vêm ao caso porque o cinema, com cortes e montagens, concentra o texto facilmente (tradução brasileira de Amir Labaki e Humberto Saccomandi).

O palco precisa ser conquistado com luta por Monica e o elenco. Provavelmente, a composição de Leopoldo teria a ganhar com um figurino escuro em contraste com a cabeleira grisalha. Algo forte diante da frágil embora intensa presença de Sophia Reis, atriz que vence o desafio de se fazer notar em silêncio quando a cena continua com os outros personagens. Ela chegará, com empenho, a uma voz encorpada. Sophia é uma surpresa no espetáculo sobre a arte teatral que Bergman, o eterno insatisfeito, chamou de ofício sombrio e cruel. 

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