'Ópera do Malandro', de Chico Buarque, se mantém atualizado com João Falcão

'Ópera do Malandro', de Chico Buarque, se mantém atualizado com João Falcão

Um artista inquieto, diretor buscou complementos que pudessem enriquecer o produto final; musical estreia no Theatro Net

Ubiratan Brasil , O Estado de S. Paulo

10 Março 2015 | 03h00

O diretor João Falcão é um artista inquieto – além de ser um apaixonado por temas que envolvam o homem comum e a transcendência pela paixão, ele não se contenta com o material que tem à disposição e parte em busca de complementos que enriquecem o produto final. É o caso de Ópera do Malandro, clássico musical de Chico Buarque, que estreia para convidados na sexta-feira, 13, no Theatro Net SP. As sessões para o público começam no dia seguinte, quando também volta em cartaz Gonzagão – A Lenda, que vai ocupar as matinês do mesmo teatro aos sábados e domingo (leia mais abaixo)

Na montagem, Falcão deu mais forças e complexidades para personagens originalmente secundários, como Barrabás, empregado do malandro que depois muda de lado. O encenador também manteve quase todas as músicas do espetáculo original, montado pela primeira vez em 1978, e ainda acrescentou músicas do disco Malandro, que Chico lançou em 1985, e também da versão para o cinema dirigida por Ruy Guerra, naquele mesmo ano.

Para isso, fez pequenas cirurgias no texto original, invertendo algumas cenas e excluindo outras. “Nem o próprio Chico notou a diferença”, diverte-se Falcão. “Havia canções do disco e do filme que ele achava pertencer ao espetáculo original.”

O motivo é que muitas músicas, como Teresinha, O Meu Amor e Pedaço de Mim, ganharam vida própria na interpretação de cantores profissionais. “Apenas deixei de fora Hino da Repressão, Desafio do Malandro e Rio 42 porque não se encaixavam, apesar de belas”, explica o diretor.

A peça conta a história do casal Fernandes de Duran e Vitória Régia, proprietários de um bordel da Lapa carioca, frequentado por bandidos e policiais e onde a relação entre a lei e o crime é promíscua. Duran e Vitória são os pais de Teresinha, menina delicada que foi enviada para o exterior para que crescesse longe da bandidagem. Ao voltar, porém, Teresinha casa-se com o malandro Max Overseas, sob as bênçãos do inspetor Chaves, o Tigrão. E a mocinha acaba por revelar um inesperado talento para o submundo ao assumir o controle do contrabando. 

Outros personagens memoráveis são Lúcia, rival de Teresinha, e o travesti Geni, apaixonado pelo delegado da cidade. “A peça se passa no Rio de Janeiro de 1940, mas seus temas principais ainda são muito atuais”, observa Falcão. “Afinal, é ambientada no mundo do crime e do contrabando e mostra como o poder pode modificar o comportamento das pessoas, mesmo das mais idôneas.”

Chico inspirou-se na Ópera dos Três Vinténs, escrita em 1928 por Bertolt Brecht e Kurt Weil, que, por sua vez, se inspiraram na Ópera dos Mendigos, de John Gay, lançada em 1728. “Brecht e Chico falam da ambição movida pelo dinheiro, que se transforma em um meio de opressão e provoca a mercantilização dos corpos e a manipulação do povo”, comenta o diretor. “E o texto do Chico continua atual pois reflete sobre o contexto social e econômico do Brasil dos anos 1970, quando ele escreveu o musical, e do século 21. Basta ver o segundo ato da peça, marcado por manifestações populares, uma insatisfação geral sobre o rumo da situação.”


Falcão acrescentou ainda outra novidade à sua montagem, essa talvez mais polêmica: todos os personagens, especialmente os femininos, são interpretados por homens – a única exceção é Larissa Luz, que faz João Alegre, o narrador, nome que evoca John Gay.

Na verdade, foi um acaso que permitiu tamanha experimentação – depois de dirigir Gonzagão – A Lenda, Falcão queria manter unido aquele grupo de atores que tão bem se entrosara e participara de um espetáculo memorável. “Eram oito homens e apenas uma mulher, na época, Laila Garin, que depois faria Elis – A Musical”, conta Andréa Alves, diretora da Sarau, produtora responsável pelos trabalhos dirigidos por Falcão. “João preferiu então manter o grupo, alternando papéis masculinos e femininos entre todos os homens e criando assim um tom brechtiano no espetáculo.”

O grupo cresceu com a vinda de outros atores, em destaque Moyseis Marques, que vive Max Overseas. Apesar de nenhuma experiência em atuação, ele conquistou o diretor pelo seu jeito e ginga – qualidades naturais de quem é um dos expoentes dos novos sambistas da Lapa carioca dos anos 2000. Moyseis soma-se, assim, ao grupo de artistas ilustres descobertos por Falcão, fileira formada por Wagner Moura, Vladimir Brichta, Lázaro Ramos e a própria Laila Garin, entre outros.

Incansável, João Falcão prepara-se agora para nova empreitada: reunir os principais personagens criados por Ariano Suassuna em um musical. “Ariano costumava criar tipos que se assemelhavam, por isso, promover o encontro deles, mesmo vindo de obras distintas, não será difícil nem causará estranhamento”, acredita.


ÓPERA DO MALANDRO

Theatro Net-SP. R. Olimpíadas, 360, Tel. 4003-1212. 6ª, 21 h; sáb., 21h30; dom., 20 h. R$ 50/ R$ 150. Até 3/5. Estreia sexta. 

Gonzagão – A Lenda volta em matinês de fim de semana

Viagem musical pela trajetória do Rei do Baião, espetáculo retorna a São Paulo depois de ser visto por mais de 50 mil pessoas

Mais que um sucesso de público – já foi visto por mais de 60 mil pessoas –, o musical Gonzagão – A Lenda é um belo exemplo de parceria. Escrito e dirigido por João Falcão, que também assina o roteiro de canções, o espetáculo foi montado com um elenco que não se conhecia, mas que, com o tempo, se tornou inseparável. “Eles criaram uma ligação incrível”, comenta o encenador. A peça volta em cartaz nas matinês do Theatro Net SP – às 18 horas de sábado e às 16h30 do domingo.
Em cena, oito atores e uma atriz se revezam em diferentes papéis para contar a trajetória do Rei do Baião, importante figura na formação cultural de Falcão. “Foram suas canções que me ajudaram a moldar a imagem do sertão, a descobrir a importância das festas juninas, a considerar o valor da resistência do nordestino”, comenta ele. “Para mim, Luiz Gonzaga é uma figura com uma força mítica maior que a do Padre Cícero.”
Falcão não se preocupou em acompanhar a linha do tempo – além de criar uma trama que se passa no futuro, quando o sertão virou mar, ele mostra um Gonzagão sob um prisma extremamente carinhoso. Por meio de mais de 30 canções (como Asa Branca e Xote das Meninas), o espetáculo acompanha a trajetória de Luiz Gonzaga (1912-1989), da infância pobre ao músico consagrado. “Minha intenção é explicar a importância do trabalho e de como Gonzaga se transformou na cara do Brasil: um homem pobre que deixou o Nordeste para virar rei”, diz Falcão. “Trata-se da identidade alegre de uma gente sofrida.”
E, seguindo sua liberdade criativa, o diretor se permitiu rebatizar duas mulheres importantes da vida do músico, Nazarena (o primeiro grande amor) e Odalea (a mãe de Gonzaguinha) como Rosinha e Morena, respectivamente, nomes que aparecem em músicas do compositor. Também as canções não são apresentadas apenas com sanfona, triângulo e zabumba – há ainda um violoncelo, uma rabeca e uma viola.

ÓPERA DO MALANDRO

Theatro Net-SP. R. Olimpíadas, 360, Tel. 4003-1212.

6ª, 21 h; sáb., 21h30; dom., 20 h. R$ 50/ R$ 150. Até 3/5.

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