CLAUDIA RIBEIRO
CLAUDIA RIBEIRO

Obra da escritora Maura Lopes Cançado ganha solo de Maria Padilha

'Diários do Abismo' relata rotina de internação da escritora diagnosticada com esquizofrenia que manteve coluna no Correio da Manhã e Jornal do Brasil

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

15 de março de 2019 | 03h00

“Hospícios são as flores frias que se colam em nossas cabeças perdidas em escadarias de mármore antigo, subitamente futuro – como o que não se pode ainda compreender.” A autoficção da escritora Maura Lopes Cançado e seu tom confessional despertaram a atenção da atriz Maria Padilha para a poesia da escritora brasileira considerada, entre tantas mulheres, como louca, pelo sistema psiquiátrico da época.

Estreia nesta sexta, 15, Diários do Abismo, inspirado em O Hospício é Deus (1965), da mineira diagnosticada com esquizofrenia. A obra, redescoberta nos últimos anos, foi importante testemunha dos casos de maus tratos sofridos por pacientes em manicômios. Maura ainda deixou o livro de contos O Sofredor do Ver (1968).

Hospício é Deus foi escrito em forma de um diárioe reúne memórias da paciente, nos diversos anos em que esteve internada. Na obra, Maura adentra o campo poético e autoficcional construindo narrativas “bastante teatrais”, diz a atriz. “Há muitas conversas relatadas”, conta Maria. “Ela descreve o ambiente, seja num quarto ou enfermaria, e os diálogos que teve com médicos, enfermeiras e outros pacientes.”

O sonho de ser escritora levou a jovem a sair de São Gonçalo do Abaeté (MG) em busca de oportunidades. A infância considerada cheia de angústias pela escritora, já aponta para uma vida adulta com a saúde fragilizada. “Ela tinha convulsões e sua família parecia negligenciar o problema e ela não foi tratada nessa época”, diz Maria. 

Aos 15 anos teve o único filho, com um jovem de 18. Logo decidiu se separar e na maioridade internou-se voluntariamente em uma clínica em Belo Horizonte. “Maura já enfrentava vários estigmas na juventude. Mãe, separada e esquizofrênica eram coisas demais. O machismo só fazia as pessoas se afastarem.”

Um brilho de esperança surge quando Maura, aos 22 anos, chega ao Rio e tem sua escrita celebrada por jornalistas e poetas como Ferreira Gullar, Assis Brasil e Carlos Heitor Cony. Seus textos passaram a ser publicados no Jornal do Brasil e no Correio da Manhã.

Para o diretor, Sergio Módena, a consciência que Maura tinha sobre a própria saúde faz da sua obra um relato fiel, íntimo e muitas vezes, irônico sobre a história dos manicômios no Brasil. Em certo momento ela elogia o trabalho da psiquiatra Nise da Silveira, que lutou contra práticas agressivas e pela humanização no tratamento dos pacientes. “Maura também relata casos de abuso sexual por parte dos empregados mas não podia denunciá-los porque tinha medo” conta Módena. “Sua obra é importante por levantar um debate, mergulhado em poesia, sobre os desmandos nesse sistema”

No palco, Maria ocupa um ambiente com muitos colchões que reinventa as memórias de Maura e vai em busca por descrevê-las além das palavras. “Na peça, o hospício é como um microcosmo, onde o poder envolvido confunde-se entre quem é são e quem é doente.” 

Para o diretor, a peça reconstrói a saudade que Maura tinha de Minas, os sonhos de viver como escritora e as dores de uma vida solitária, acompanhada apenas de suas palavras. “Sua voz de mulher transgressora tornou-se inadequada para a época. É por isso que precisamos delas.”

DIÁRIOS DO ABISMO. Sesc 24 de Maio. Rua 24 de Maio, 109. Tel.: 3350-6300. 5ª, 6ª, sáb., 21h, dom., 18h. R$ 40 / R$ 20. Estreia hoje, 15. Até 7/4 

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