João Caldas/Divulgação
João Caldas/Divulgação

'O Sucesso a Qualquer Preço', de David Mamet, estreia em São Paulo

Peça do dramaturgo David Mamet desnuda a cobiça de agentes imobiliários individualistas

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

18 de junho de 2015 | 03h00

Em 1984, o dramaturgo americano David Mamet ganhou o Pulitzer, um dos mais prestigiados prêmios dos EUA, pela peça O Sucesso a Qualquer Preço. Uma honra merecida – conhecido como iconoclasta da insensibilidade, pela raiva e pelo rancor de seus textos, Mamet consegue ali arrastar a plateia para profundezas em que os terrores são menos físicos e mais emocionais, em que a crueldade é ainda mais perturbadora por não ter sentido.

O Sucesso a Qualquer Preço estreia nesta quinta-feira (18) em São Paulo, no Teatro Vivo, em apresentação para convidados – a partir de sexta-feira (19), começa a temporada para público. Um espetáculo que promete sucesso: ambientado nos anos 1970, mostra a grande competição em uma corretora de imóveis.

Com as vendas em baixa, os corretores Shelley Levene (Norival Rizzo), Ricky Roma (Marco Pigossi), Dave Moss (Renato Caldas) e George Aaronow (Marcos Daud) vivem sob forte pressão de um novo chefe, o arrogante John Williamson (André Garolli). A fim de incrementar os negócios, Williamson criou um torneio entre os integrantes, no qual a premiação será um Cadillac Eldorado para o melhor vendedor. Já o segundo vai ganhar um conjunto de seis facas para churrasco. E o terceiro prêmio é a demissão sumária, pois não há ali lugar para fracassados. Com isso, é criada uma competição interna, que permite a peça discutir até onde o homem se permite ir para alcançar o sucesso e manter seu emprego, seja corrompendo, roubando ou mesmo ludibriando pessoas simples e ingênuas.

“É uma forma muito bem articulada de mostrar como podemos ser cruéis”, observa Garolli. “E, como sempre acontece nos textos de Mamet, a palavra é utilizada tanto para seduzir como para humilhar.” De fato, Mamet que, desde a morte de Arthur Miller, disputa com Edward Albee o título de melhor dramaturgo vivo dos EUA, tornou-se conhecido por textos hipnóticos, tocantes, às vezes extremamente engraçados, outras duramente precisos.

Com O Sucesso a Qualquer Preço, David Mamet ofereceu uma descrição dramática daquela época, os anos 1980, quando Ronald Reagan estava na presidência promovendo a competitividade, aqui representada pela cobiça de uma geração individualista de agentes imobiliários.

“A peça tem personagens peculiares e representativos dessa sociedade capitalista”, observa o diretor Alexandre Reinecke. “Temos Dave, o grande perdedor, o eterno ‘looser’; também o superstar, o protótipo do ganhador, representado por Roma; já Levene é o ultrapassado, aquele cujos métodos já não funcionam mais, e ainda Aaronow, o mediano, sujeito com empáfia e que se julga talentoso, mas não é. Finalmente, o chefe, Williamson, incapaz e que só conseguiu a vaga por indicação.”

Além de personagens característicos, a peça retrata com precisão o acirrado clima de competitividade entre os homens que, na disputa pelas “fichas quentes”, ou seja, aquelas que trazem os dados dos melhores compradores, participam de brigas e tramas dentro da empresa. Tudo muda, porém, quando as tais fichas são furtadas, originando uma investigação que coloca todos sob suspeita, o que aumenta ainda mais a fervura do caldeirão.

Mamet parece escrever de um fôlego só, dada a profusão de palavras e diálogos que marca suas peças. “Aqui, há um requinte matemático, em que cada frase tem de ser dita no momento certo”, comenta Marco Pigossi, que vive o talentoso Ricky Roma. “A escrita de Mamet tem de ser dita como uma sinfonia é executada por uma orquestra: basta uma nota fora para que o resultado seja comprometido.” 

Por conta disso, segundo ele, os ensaios foram intensos, buscando o entrosamento no ritmo e na intensidade das falas. “No início, dizíamos as falas em uma determinada velocidade e, à medida que aumentava o entrosamento, as falas eram disparadas cada vez mais rápido, até descobrirmos o tom adequado.”

O resultado é, de uma certa, perturbador, como percebeu o elenco em apresentações prévias, em cidades como Vitória, Goiânia, Campinas, além de São Paulo. “A peça evidenciou reações do politicamente correto”, notou Pigossi. “Os personagens se ofendem muito com palavrões, o que causou um grande espanto.” 

“Também a competitividade feroz entre os corretores mexeu com a plateia, algo com a qual não estamos ainda acostumados”, completa Garolli. “Aqui, ao invés de passarmos as melhores dicas para o vendedor mais astuto, é preferível passar para o coitadinho, que não tem muita chance.”

O Sucesso a Qualquer Preço foi levado ao cinema, em 1992, com roteiro de Mamet e direção de James Foley, além de um elenco estelar, formado por Al Pacino, Jack Lemmon, Alec Baldwin, Ed Harris, Alan Arkin e o então iniciante Kevin Spacey.

“O filme tem um personagem que não existe na peça, vivido por Baldwin, pois os produtores queriam um elemento mais evidente para fomentar a discussão”, comenta Garolli, que reviu o longa, ao contrário de Pigossi, que vive o mesmo papel interpretado por Al Pacino.

“Há um toque muito especial e particular do Pacino, que vai além do papel, é sua persona aparecendo”, comenta. “Não se trata de crítica, pois ele é um grande ator, mas preferi me moldar ao papel e não o contrário, como ele faz.”

Realmente, Pacino é um ator cuja figura paira em um nível superior aos personagens escolhidos, uma posição semelhante à de Marlon Brando, que se tornou mais emblemático que seus papéis. Tanto que, em 2012, em uma remontagem da peça na Broadway, Pacino assumiu um novo personagem (antes vivido por Jack Lemmon) e conseguiu novas falas, que marcaram ainda mais sua presença no palco.

O SUCESSO A QUALQUER

Teatro Vivo. Av. Dr. Chucri Zaidan, 860, tel.97420-1520. 6ª, 21h30; sáb., 21h; dom., 18h. R$ 50/R$ 60. Até 6/9

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