‘O Rei da Vela’ ressalta atualidade da obra de Oswald de Andrade

‘O Rei da Vela’ ressalta atualidade da obra de Oswald de Andrade

Em 2017, José Celso Martinez Correa conduziu uma remontagem da versão do Oficina, nos mesmos moldes da original; em 2018, Os Parlapatões estrearam uma leitura debochada

Maria Eugênia de Menezes, Especial para o Estado, O Estado de S.Paulo

08 Junho 2018 | 06h01

O Rei da Vela é um texto que retorna para contar a história que o Brasil insiste em esquecer. Escrita em 1933, a peça de Oswald de Andrade permaneceu desconhecida até 1967, quando o Oficina conduziu uma encenação que marcou a trajetória do teatro brasileiro e serviu de impulso para importantes transformações culturais, como o movimento tropicalista. Mesmo com tamanho impacto, o texto voltou a um relativo esquecimento durante 50 anos e só retornou com força agora, quando o País parece ter empreendido uma viagem no tempo, repetindo erros passados.

+++ Parlapatões faz nova versão de ‘O Rei da Vela’, de Oswald de Andrade

Em 2017, José Celso Martinez Correa conduziu uma remontagem da versão do Oficina, nos mesmos moldes da original. A seguir, em 2018, Os Parlapatões estrearam uma leitura debochada, o que tornou a atualidade radical da obra ainda mais flagrante. Para compor o seu espetáculo, o diretor Hugo Possolo tratou de explorar as características mais marcantes de sua própria companhia: o humor e as raízes circenses.

Com uma linguagem absolutamente moderna para a época em que foi escrita, O Rei da Vela conta a trajetória de Abelardo I, um burguês que, depois de enriquecer emprestando dinheiro a juros para os mais pobres, pretende legitimar-se socialmente casando-se com a herdeira de uma falida família da aristocracia paulista. Fala-se, sobretudo, da transferência de poder de uma classe – a aristocracia cafeeira – à outra – a burguesia urbana. Um processo que aposta em algumas mudanças para que a estrutura do poder permaneça a mesma.

Na adaptação dos Parlapatões, quebra-se a estrutura da peça, dividida em três atos. O final, em que o protagonista morre, é trazido para a cena inicial e esmiuçado ao longo da montagem. Além disso, Oswald de Andrade torna-se personagem de sua própria criação (interpretado por Nando Bolognesi). Surge no palco para comentar algumas passagens e trazer rubricas de algumas ações. Ainda que esse narrador não tente resgatar a aparência ou o espírito do escritor, suas intervenções são relevantes por dar à peça um sabor de teatro épico – técnica que busca o distanciamento entre o que é colocado em cena e o espectador, para que esse possa analisar criticamente o que está vendo. 

Nessa subversão dos atos, algumas passagens do texto são suprimidas. Há certas relações propostas pela dramaturgia – o texto de Oswald está sempre criando duplos sentidos – que se perdem. Reduz-se o diálogo mais longo entre Abelardo e Heloísa de Lesbos, sua noiva. As participações do personagem do Americano, um imperialista pronto a dominar a burguesia local, também se tornaram mais breves. A despeito das perdas, o resultado é positivo. Os cortes trazem um ritmo mais dinâmico e favorecem uma feliz aproximação com episódios contemporâneos.

Esses trânsitos entre uma obra dos anos 1930 e o noticiário de hoje são mais evidentes do que se poderia supor. O País do século 21 não é mais que um simulacro, fantasia para uma estrutura que permanece arcaica e colonial. A encenação se apoia não apenas na graça circense – com a qual a trupe se sente tão à vontade – mas também lança mão da estrutura do teatro de revista. 

Na revista, gênero típico do início do século 20, os números musicais eram essenciais, assim como a sátira, que se voltava em especial contra a hipocrisia da sociedade e dos políticos. Os Parlapatões trilham esse caminho, mantendo uma banda no palco, dando às cenas uma aparência de esquetes cômicos e carregando na crítica a hipocrisias passadas e presentes. Dessa maneira, tanto o impeachment quanto a greve dos caminhoneiros podem ser motivo de riso, sem que seja necessária uma atualização da trama ou expediente parecido. 

O maior achado da montagem dirigida por Hugo Possolo, contudo, é a sua própria atuação. Durante a Semana de Arte de 1922, o ator Abelardo Pinto, o palhaço Piolin, tornou-se objeto de culto e reconhecimento. Era tratado como exemplo de artista genuinamente popular, uma ideia que começava a fazer sentido naquela época. 

Na pele de Abelardo I, Possolo resgata a inspiração de Oswald na hora de compor o protagonista e lhe dá os traços do famoso Piolin. Parece ter as pernas alongadas. Tenta emular trejeitos, traz a maquiagem em preto e branco e, particularmente, o talento do velho palhaço como comunicador. Mas não fica apenas na imitação. Com ironia – e um travo melancólico que lembra a máscara do clown – o ator consegue construir uma figura tão sórdida e patética como os dias que seguem. 

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