ALEX SILVA
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'O que atores precisam é de grandes papéis', diz Magali Biff

Nos 35 anos de carreira, a atriz e diretora fala do preconceito de diretores de cinema com intérpretes de teatro e relembra da novela 'Chiquititas'

Leandro Nunes, O Estado de S.Paulo

10 Junho 2018 | 06h00

Se o ano de 2018 ressuscitou A Nova Califórnia, de Lima Barreto, não sabemos. Mas a histeria social de uma vila que descobre uma suposta fórmula de transformar ossos em ouro reluziu tão atual quando narrada pela atriz Magali Biff, em A Tragédia Latino-Americana, de Felipe Hirsch. A peça que estreou em 2016 abriu o ano de 2018 no Festival Santiago Amil é um dos projetos ao lado de muitos outros que Magali enumera em conversa com o Estado, com a ajuda dos dedos. “Foram sete até agora, só nesse semestre”, e reconta para confirmar. 

Um deles encerra neste domingo, 10, e colocou a atriz sob direção de Rubens Rewald e do estreante nos palcos Jean-Claude Bernadet, na peça À Procura de Emprego, de Michel Vinaver, numa montagem que surge abolindo planos paralelos num jornada sem rubricas. “É muito difícil”, explica a atriz. “No texto não há indicações de momentos ou pistas que separam os ambientes da história.” Em uma cena no qual ocorre a entrevista, o texto é tanto âncora como propulsor. “Os cortes são súbitos e o personagem de Eucir de Souza está ao mesmo tempo na entrevista e conversando com a família.” 

Foi aos 35 anos que a força da interpretação de Magali abriu nova oportunidade. Ela estreou como diretora na peça Nos Países de Nomes Impronunciáveis, em cartaz no Teatro Artur Azevedo. “Foi uma das coisas mais instigantes.” O projeto apresenta cartas fictícias escritas por Paula Autran e lidas por Antonio Salvador e Stella Tobar. “Quando li tudo percebi que precisávamos criar uma configuração. As cartas necessitavam de uma estrutura para funcionar”, explica a nova encenadora. Os diálogos na peça estão à serviço de erigir um clima amistoso que reúne a plateia. “Todo mundo tem alguma histórias que guardou ou que queira compartilhar sobre os pais, a família. A peça nasce com essa intenção, não de modo piegas, mas de valorizar o sentimento sobre essas memórias. O teatro precisa, como nunca, provar a plateia que valeu a pena sair de casa.” 

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O desafio da direção não era coisa que a Magali de Chiquititas (1997-1999) imaginava. Sucesso nos anos 1990, a novela exibida no SBT deixou frescas as pegadas na memória dessa geração. “Foi um período de dois anos gravando em Buenos Aires.” O projeto que lançou nomes como a hoje apresentadora Fernanda Souza conserva boas e agradáveis memórias para Magali. No papel da vilã Ernestina, bufona e sem talento para a maldade, a personagem foi símbolo da amizade da atriz com o público infantil, e também com a principal personagem com quem Magali contracenava: Brunilda, a aranha caranguejeira. “Cheguei para gravar e apresentaram minha nova amiga. Aquilo virou uma aventura.” Com um pouco de receio, Magali lembra que segurou a criatura enquanto ouvia as recomendações: “A produção informou que havia retirado todo o veneno dela. Mesmo assim, ela poderia picar, mas eu não precisava me preocupar.”

Apesar do veneno não trazer complicações para humanos, os pelos no corpo do aracnídeo podem provocar alergias, além de uma picada dolorosa. As gravações seguiram e a cada intervalo a nova atriz conhecia mais Magali, andando nos seus braços. “Mas um dia, ela simplesmente pulou da minha mão e caiu no chão.” Hoje em dia, a notícia da morte do animal seria motivo de protestos e cancelamento do folhetim. “Aí arrumaram outra, mas ela era um pouco diferente. Eu ficava segurando ela, com medo de que caísse.”

O sucesso da novela confirmou-se quando a atriz voltou para o Brasil. “No shopping, as crianças passaram a me seguir. Tenho vontade de fazer outros projetos assim.” 

Enquanto isso, o cinema brasileiro colhe tardiamente, e não o contrário, o sucesso de uma atriz como Magali. Em 2016, ela estreia Deserto, dirigido por Guilherme Weber. No ano seguinte veio Açúcar, de Renata Pinheiro, e Pela Janela, que lhe rendeu o prêmio de melhor atriz no Fest Aruanda do Audiovisual Brasileiro, em João Pessoa. “Acho que diretores de cinema pensam que atores de teatro não dão conta de seus personagens nas telas.” Ela explica que com métodos singulares, cabe ao intérprete manusear adequadamente a si como instrumento. “No teatro, falamos para quem está na última fila. No cinema, tiramos isso, e eu sei. Os que os atores precisam é de grandes papéis.”

NOS PAÍSES DE NOMES IMPRONUNCIÁVEIS. Teatro Artur Azevedo. Av. Paes de Barros, 955. Tel: 2605-8007. 6ª, sáb., 21h, dom., 20h. R$ 18. Até 17/6.

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